Durante décadas, entrar na faculdade de Medicina era visto como uma das maneiras mais seguras de conquistar estabilidade financeira e emprego praticamente garantido. Mas uma nova geração de médicos brasileiros está descobrindo uma realidade diferente: para conseguir trabalhar, muitas vezes é preciso ser mais rápido do que centenas de colegas em uma mensagem de celular.

Em grupos de aplicativos, a disputa por plantões acontece em questão de segundos. Basta uma empresa anunciar uma vaga para que dezenas de profissionais respondam com uma única palavra: “Pego”. Quem primeiro manifesta interesse costuma ter a preferência para assumir o serviço.

Em um dos grupos apresentados por profissionais que vivem essa realidade, 246 pessoas acompanham as oportunidades. Uma oferta publicada às 16h38 recebeu diversas respostas no mesmo minuto. Alguns médicos chegam a deixar a palavra “pego” preparada no celular para responder imediatamente quando aparece uma notificação.

A cena revela uma transformação no mercado médico brasileiro, especialmente entre profissionais recém-formados que procuram os primeiros empregos em hospitais, unidades de pronto atendimento e serviços de emergência.

Na Bahia, médicos recém-formados percorrem cidades em busca de plantões

A situação também aparece na rotina de profissionais que atuam em Salvador e na Região Metropolitana.

Um médico formado em 2025 relata que começou a procurar trabalho antes mesmo de concluir os procedimentos necessários para obter seu registro profissional. Depois de conseguir oportunidades, passou a atuar em diferentes unidades de saúde.

Os primeiros trabalhos incluíram deslocamentos entre Salvador, Camaçari, Lauro de Freitas e Dias d’Ávila. A experiência mostra como recém-formados precisam ampliar a busca por oportunidades e aceitar escalas em diferentes municípios para garantir uma renda mensal.

O profissional conseguiu posteriormente um plantão fixo em Salvador, mas descreve um cenário muito diferente daquele que imaginava durante a graduação.

A dificuldade não significa necessariamente ausência de trabalho para todos os médicos. O problema envolve a concorrência pelas escalas mais procuradas, a instabilidade dos vínculos e as condições oferecidas pelas instituições contratantes.

Brasil já ultrapassou 50 mil vagas anuais em cursos de Medicina

494

Escolas médicas em 2025

50.974

Vagas anuais de graduação

Dados de levantamento da Faculdade de Medicina da USP, publicado em outubro de 2025.

A expansão dos cursos de Medicina ajuda a explicar parte dessa mudança. Um levantamento da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo mostrou que o Brasil chegou a 494 escolas médicas em 2025, com capacidade para oferecer 50.974 vagas anuais de graduação.

Entre janeiro de 2024 e setembro de 2025, foram autorizados 77 novos cursos, além da ampliação de vagas em instituições existentes. Cerca de 80% das vagas de graduação estavam concentradas na rede privada.

Esses números representam vagas de ingresso, e não a quantidade efetiva de médicos formados anualmente. Ainda assim, indicam o ritmo acelerado de expansão da formação médica no país.

A mudança também altera uma antiga dinâmica de contratação. Profissionais experientes recordam que representantes de hospitais e prefeituras costumavam procurar estudantes próximos da formatura para oferecer oportunidades de emprego.

Agora, em determinados serviços, são os médicos que procuram gestores hospitalares repetidamente em busca de uma vaga.

Um profissional com 25 anos de experiência na saúde relata receber dois, três ou mais pedidos de emprego, mesmo quando não há posições disponíveis.

Plantões de 12 horas podem pagar de R$ 800 a R$ 1.700

A remuneração continua sendo um dos atrativos da Medicina, mas a forma como muitos profissionais precisam organizar o trabalho gera preocupações.

Nos relatos apresentados, os valores de plantões de 12 horas variam entre R$ 800 e R$ 1.700, conforme a unidade, o serviço e as condições de contratação. São valores citados pelos entrevistados, não uma média salarial representativa do mercado brasileiro.

Um dos médicos afirma manter quatro vínculos profissionais para compor sua renda.

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A consequência é uma rotina de deslocamentos, noites mal dormidas e turnos sucessivos.

Depois de encerrar um plantão pela manhã, o profissional conta que precisa retornar ao trabalho às 19h para cumprir outra jornada até as 7h do dia seguinte.

A situação provoca um questionamento que ultrapassa a discussão sobre salários: até que ponto a necessidade de acumular plantões pode comprometer o descanso e a segurança do atendimento?

Concorrência também pode enfraquecer a negociação dos médicos

Outro aspecto apontado pelos profissionais é o avanço de modelos de contratação por empresas intermediárias e pessoas jurídicas.

Em determinadas unidades, empresas são responsáveis por organizar escalas e selecionar médicos para os plantões.

Os relatos indicam que, diante de um número elevado de interessados, alguns profissionais sentem menos liberdade para negociar remuneração, atrasos de pagamento e condições de trabalho.

Há também queixas de pagamentos realizados até 90 dias depois do serviço prestado, situação que exige planejamento financeiro e pode comprometer a estabilidade de quem depende exclusivamente dos plantões.

Um médico entrevistado afirma que determinados valores pagos atualmente são semelhantes aos praticados em 2010 ou 2015. A declaração descreve sua experiência profissional e não representa, isoladamente, uma comprovação de congelamento generalizado dos pagamentos em todo o país.

A preocupação central é que a pressão por oportunidades possa levar alguns profissionais a aceitar vínculos precários ou jornadas excessivas.

Mais médicos não significa atendimento melhor em todas as regiões

O crescimento do número de profissionais também expõe um paradoxo da saúde brasileira.

Enquanto jovens médicos relatam dificuldade para conquistar determinadas escalas, cidades menores e localidades afastadas dos grandes centros continuam enfrentando problemas para atrair e manter profissionais.

A Demografia Médica no Brasil 2025 mostrou que mais de 70% dos médicos do Nordeste estavam concentrados nas capitais da região. A expansão da formação, portanto, não resolve automaticamente a desigualdade na distribuição dos serviços de saúde.

Especialistas e profissionais ouvidos alertam que vínculos frágeis, cansaço acumulado e pressão por produtividade podem criar riscos para a assistência.

Isso não significa que a ampliação do número de médicos, por si só, provoque piora na qualidade do atendimento. A segurança do paciente depende também de qualificação, supervisão, infraestrutura, condições de trabalho e organização dos serviços.

A nova geração começa a repensar o futuro da profissão

A transformação atinge também as expectativas de quem escolheu a Medicina acreditando em uma trajetória previsível de ascensão financeira.

Profissionais entrevistados relatam que conhecidos e familiares passaram a reconsiderar o ingresso na carreira diante do custo elevado da graduação e das dificuldades encontradas no início da vida profissional.

Para quem estudou em uma faculdade privada, a preocupação pode ser ainda maior quando existem financiamentos ou dívidas a pagar.

Ao mesmo tempo, jovens médicos continuam reconhecendo as oportunidades que a profissão oferece. A possibilidade de especialização, ingresso na residência médica, carreira acadêmica e construção de consultórios permanece no horizonte.

Um recém-formado conta que chegou a questionar sua escolha profissional durante os primeiros meses de trabalho. A experiência com plantões desgastantes, entretanto, não eliminou seu interesse pela Medicina.

Seu objetivo agora é ingressar em uma residência, conquistar uma especialização e exercer a profissão em condições mais próximas da assistência em que acredita.

A mudança de perspectiva resume um dos principais desafios dessa geração: o diploma continua representando uma conquista importante, mas já não elimina a necessidade de disputar oportunidades, construir experiência e planejar cuidadosamente os próximos passos.

A palavra “pego”, digitada às pressas em um grupo de celular, tornou-se um retrato dessa nova realidade. Em uma profissão tradicionalmente associada à segurança financeira, jovens médicos descobrem que conquistar espaço no mercado também pode significar enfrentar concorrência intensa, vínculos incertos e uma corrida permanente pelo próximo plantão.