Uma taça fabricada no Egito, um utensílio vindo da China, um artigo doméstico produzido na Turquia e dezenas de produtos que custam apenas R$ 10. Nas prateleiras das lojas populares de Salvador e de outras cidades baianas, mercadorias de diferentes partes do mundo dividem espaço e despertam uma pergunta inevitável: como é possível vender tanta coisa por preços tão baixos?

A resposta está em uma operação comercial muito mais complexa do que parece. Por trás das etiquetas acessíveis existe uma cadeia de fornecedores, importadores, centros de distribuição, contêineres e negociações que podem durar horas até chegar ao preço desejado.

Mas há outro detalhe que ajuda a explicar a expansão desse mercado: os consumidores nem sempre entram nessas lojas apenas para economizar. Muitas vezes, chegam procurando um único produto e saem com sacolas cheias de mercadorias que sequer planejavam comprar.

Como as lojas conseguem vender produtos por apenas R$ 10?

O primeiro segredo é comprar grandes quantidades e negociar preços constantemente.

Em uma das redes retratadas, uma equipe trabalha diretamente na busca por fornecedores, melhores condições comerciais e oportunidades de aquisição. Segundo representantes do negócio, determinadas negociações podem consumir oito, dez ou até mais horas.

O objetivo é reduzir o custo de cada mercadoria a um patamar que permita revendê-la por valores populares, sem depender de uma margem elevada em cada unidade.

Nesse modelo, o ganho está principalmente na quantidade de produtos vendidos e na velocidade com que as mercadorias deixam as prateleiras.

Uma loja pode ganhar relativamente pouco em uma taça, um copo ou um acessório, mas compensar esse resultado com a comercialização de centenas ou milhares de itens.

É o chamado giro de estoque, um dos pilares do varejo de preços baixos.

Isso não significa, porém, que todos os produtos vendidos por R$ 10 tenham a mesma margem de lucro. Custos de importação, impostos, aluguel, transporte, perdas e salários variam conforme a operação.

O preço pago aos fornecedores continua sendo uma informação estratégica que os comerciantes preferem não revelar.

Da China ao porto de Salvador: a viagem dos produtos baratos

Um dos aspectos mais surpreendentes desse comércio é a origem internacional de mercadorias aparentemente simples.

Durante a observação dos produtos disponíveis, aparecem itens fabricados em países como Egito, China e Turquia. O Paquistão também surge entre os países mencionados.

Para chegar às lojas baianas, as mercadorias podem seguir diferentes trajetos.

Uma possibilidade é a compra de produtos já distribuídos no Brasil, enviados por caminhões de São Paulo ou de outras regiões. Segundo o relato de comerciantes, determinadas entregas rodoviárias levam de dois a três dias.

Outro caminho envolve a importação marítima.

Nesse caso, contêineres transportam mercadorias pelo oceano até o porto de Salvador, onde passam pelos procedimentos necessários antes de seguir para centros de distribuição e, finalmente, para as lojas.

Conforme os relatos, algumas operações internacionais podem levar aproximadamente três meses, considerando o percurso logístico descrito pelos comerciantes.

A produção industrial em grande escala, especialmente na China, também influencia o preço final. Quanto maior a quantidade produzida, maior pode ser a possibilidade de diluir custos industriais e negociar valores competitivos.

A internet acrescentou outra vantagem: hoje, importadores e distribuidores conseguem negociar com fornecedores estrangeiros de maneira muito mais direta, reduzindo algumas etapas comerciais que antes encareciam as mercadorias.

Cliente entra para comprar uma coisa e sai com R$ 700 em produtos

Se os baixos preços ajudam a atrair consumidores, a variedade é o que frequentemente os faz permanecer dentro das lojas.

Entre utensílios domésticos, cosméticos, brinquedos, objetos decorativos, artigos de papelaria, produtos para animais e acessórios, a sensação é de encontrar uma novidade a cada corredor.

Uma consumidora relatou gastar entre R$ 600 e R$ 700 por mês nesse tipo de estabelecimento. O valor, segundo ela, representa uma parcela importante de seu orçamento.

Outros clientes descrevem visitas frequentes, inclusive mais de uma vez na mesma semana, para conferir novidades ou atender pedidos de familiares e colegas.

A compra deixa de ser apenas uma tarefa doméstica e passa a funcionar também como uma forma de passeio e entretenimento.

A estratégia comercial aproveita justamente esse comportamento.

Produtos com preços acessíveis reduzem a resistência à compra individual. Um item de R$ 10 pode parecer pouco, mas dez produtos já representam R$ 100. Quando a decisão se repete ao longo do mês, o impacto no orçamento pode ser considerável.

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Esse é um dos paradoxos do comércio popular: o consumidor pode economizar na comparação entre produtos semelhantes, mas acabar gastando mais do que planejava por causa da quantidade adquirida.

As antigas lojas de R$ 1,99 deram lugar a uma nova geração de comércio

O crescimento das lojas de R$ 10 também revela mudanças no poder de compra do brasileiro.

As tradicionais lojas de R$ 1,99, que ganharam espaço durante um período de maior estabilidade dos preços, tornaram-se uma referência histórica do comércio popular.

Com o passar dos anos, a inflação e a transformação dos custos comerciais dificultaram a manutenção daquele padrão de preços.

Surgiram, então, modelos de R$ 5, R$ 10, R$ 20 e outras faixas de valores.

O que antes era encontrado principalmente em barracas, camelôs e pequenos pontos comerciais começou a ganhar espaço em lojas estruturadas, com corredores organizados, ampla exposição de mercadorias e reposição frequente.

Esse movimento também responde à mudança dos hábitos de consumo.

Enquanto parte das compras de roupas, eletrônicos e eletrodomésticos migrou para a internet, as lojas populares encontraram uma oportunidade no comércio presencial de produtos baratos, variados e disponíveis imediatamente.

Além do preço, elas oferecem algo que a compra online não reproduz completamente: a possibilidade de tocar, comparar e descobrir objetos que o consumidor não estava procurando.

A variedade virou um dos maiores atrativos

Há estabelecimentos que recebem novos volumes de mercadorias semanalmente, mantendo o interesse de quem visita as lojas regularmente.

Entre os produtos procurados estão taças, jogos de cozinha, papel de parede decorativo, cosméticos, acessórios pessoais, artigos de papelaria e objetos para organização da casa.

A mistura de categorias favorece compras que começam com uma necessidade específica e terminam com vários itens adicionais.

Uma pessoa pode entrar para adquirir material escolar e descobrir produtos de decoração. Outra chega procurando um cosmético e encontra roupas, acessórios ou utensílios domésticos.

O resultado é um comércio que aposta na descoberta permanente.

Para os lojistas, isso significa aumentar a frequência de visitas e a quantidade de itens por compra. Para os consumidores, representa a chance de encontrar produtos variados sem precisar percorrer diferentes estabelecimentos.

O preço baixo também levanta perguntas sobre a origem das mercadorias

Existe, entretanto, uma questão que nem sempre aparece nas etiquetas.

Para que um produto atravesse países, passe por transportadoras e intermediários, pague tributos e ainda chegue à prateleira por R$ 10, diversos custos precisam ser administrados ao longo da cadeia.

Isso inclui a matéria-prima, a remuneração dos trabalhadores, o processo industrial, as embalagens, o transporte e os impactos ambientais.

A escala produtiva e a eficiência logística ajudam a explicar os preços, mas não eliminam a importância de conhecer as condições de fabricação e a procedência das mercadorias.

Produtos baratos não são necessariamente inferiores ou irregulares. Da mesma forma, o preço reduzido, por si só, não comprova boas condições de produção.

A transparência dos fornecedores e o cumprimento das normas de segurança e comercialização são fundamentais, especialmente em categorias como cosméticos, brinquedos e produtos de uso pessoal.

Por que esse comércio encontrou tanto espaço na Bahia?

O modelo combina características especialmente atrativas para consumidores que procuram variedade e preços acessíveis.

De um lado, há famílias tentando fazer o orçamento render. De outro, comerciantes que apostam em compras de grande volume, ampla oferta de produtos e reposição constante para movimentar suas lojas.

A Bahia também participa dessa engrenagem por meio de sua infraestrutura comercial e logística, incluindo a distribuição rodoviária e a movimentação de cargas pelo porto de Salvador.

Mas a popularidade dessas lojas não se explica exclusivamente pela necessidade de economizar.

Existe uma experiência de consumo envolvida: circular entre prateleiras, encontrar novidades, descobrir produtos importados e realizar pequenas compras que proporcionam satisfação imediata.

É justamente a combinação entre preço, curiosidade e variedade que ajuda a entender por que algumas pessoas retornam tantas vezes.

No fim, o verdadeiro segredo das lojas de R$ 10 não está apenas em conseguir comprar barato. Está em transformar mercadorias de baixo valor unitário em um negócio de grande circulação — e em fazer o consumidor descobrir, a cada visita, alguma coisa nova para levar para casa.