Um movimento silencioso, mas crescente, está redesenhando o mapa da migração no Brasil. De acordo com dados oficiais, a presença de baianos em Santa Catarina quase quadruplicou nos últimos anos, criando um fenômeno social que vem chamando a atenção de pesquisadores e da própria população local.
Entre 2010 e 2022, o crescimento foi de impressionantes 276,6%: o número de baianos que deixaram a Bahia para viver no estado do sul saltou de 15 mil para 58 mil pessoas.
As razões da migração
Para entender essa onda, é preciso olhar para dois polos: a Bahia, que sofre com a perda populacional, e Santa Catarina, que aparece como promessa de oportunidades.
A Bahia registrou a maior perda populacional relativa do país entre 2010 e 2022: mais de 3 milhões de baianos deixaram o estado, enquanto apenas 1 milhão de pessoas de outras regiões escolheram a Bahia como destino. O saldo foi negativo: 2,4 milhões de moradores a menos.
Já Santa Catarina passou a se destacar como terra de emprego, renda e qualidade de vida. O estado investiu pesado em marketing territorial desde os anos 70, consolidando-se como polo de turismo, tecnologia, indústria e segurança pública acima da média nacional.
Histórias que explicam os números
Entre os migrantes, os relatos são de coragem e adaptação. “Vieram umas 20 pessoas da minha família, todos já com vida estabilizada aqui. Serviço tem muito, ninguém fica parado”, contou uma baiana que deixou o litoral norte da Bahia para morar em Morro da Fumaça, no sul catarinense.
Outro depoimento revela o atrativo financeiro: “Na Bahia, mecânico ganha em torno de R$ 2 mil. Aqui, consigo receber mais de R$ 6 mil. Não tem comparação”, disse um trabalhador de Florianópolis.
Há também quem tenha construído mais do que uma carreira. “Comecei como doméstica e hoje eu e meu esposo conseguimos comprar terreno e investir em kitnets. Aqui o futuro parece mais possível”, relatou outra migrante.
Desafios da integração
Apesar das oportunidades, a integração não é livre de tensões. Há relatos de xenofobia e falas preconceituosas contra nordestinos. A Defensoria Pública de Santa Catarina afirma não ter dados específicos sobre esses casos, mas o tema está em debate.
Por outro lado, muitos baianos relatam experiências positivas. “Nunca sofri racismo aqui, sempre fui muito bem tratada”, afirmou uma moradora de Florianópolis.
Futuro em aberto
Se o coração ainda bate pela Bahia, a cabeça e a carteira agradecem a mudança. Muitos migrantes afirmam não ter planos de voltar em definitivo, mas sonham em manter um “pé lá e outro cá”: visitar a família na Bahia e garantir a qualidade de vida em Santa Catarina.
Com um fluxo migratório crescente e sem perspectiva de desacelerar, Santa Catarina se consolida como a nova “fábrica dos sonhos” de muitos baianos.
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