A Perini não era apenas uma rede de padarias em Salvador. Para muitos baianos, ela representava tradição, luxo acessível e o sabor da memória afetiva. Da coxinha famosa aos vinhos importados raros, a Perini se consolidou como um patrimônio cultural e gastronômico da cidade. Porém, nos últimos anos, o que antes era sinônimo de sofisticação se transformou em um enigma: lojas fechadas, perda de identidade e questionamentos sobre como um império local acabou encolhendo.
Neste artigo, vamos explorar a trajetória da Perini, desde sua fundação nos anos 1960 até os desafios recentes que a colocaram em crise. Analisaremos a influência da venda para grupos internacionais, as mudanças no varejo, o impacto da pandemia e a memória que a marca deixou em Salvador.
A origem da Perini: tradição e visão inovadora
A história da Perini começa em 1964, quando os imigrantes galegos Demiro Carbalo Alfaia e José Rua Faro (Pep) fundaram a Panificadora Elétrica da Barra.
Na época, Salvador ainda não tinha estabelecimentos que unissem panificação de qualidade, produtos importados e atendimento diferenciado. Pep tinha um conceito claro: criar um espaço que fosse mais do que uma padaria. A Perini surgiu como uma delicatessen pioneira, oferecendo vinhos, queijos, embutidos e carnes raras.
A revolução no varejo baiano
Introdução de produtos artesanais exclusivos.
Atendimento personalizado, com foco em proximidade com o cliente.
Estratégia de localização em bairros nobres e shoppings de Salvador.
Rapidamente, a Perini deixou de ser apenas um comércio para se tornar um ponto de encontro social da elite baiana.
O auge: símbolo de status e qualidade
Durante as décadas de 1970 a 1990, a Perini viveu seu apogeu. A rede expandiu-se para bairros estratégicos como Graça, Pituba e Costa Azul, e marcou presença nos principais shoppings da cidade.
Produtos icônicos
A coxinha de catupiry, considerada por muitos insubstituível.
Vinhos importados exclusivos.
Carnes exóticas como faisão, avestruz e galinha da Angola.
Ir à Perini era sinônimo de status. As famílias mais tradicionais de Salvador frequentavam suas lojas não apenas para comprar, mas para socializar e mostrar pertencimento a uma cultura de consumo sofisticada.
A venda para o grupo chileno: um ponto de virada
O momento decisivo ocorreu em 2010, quando a família fundadora vendeu a Perini por 27 milhões de dólares ao grupo chileno Cencosud (que já controlava GBarbosa e Mercantil Rodrigues).
Na época, Pep Faro declarou:
“A minha Perini tornou-se um amante muito exigente para eu sustentar.”
A venda parecia estratégica, diante da entrada de gigantes internacionais como Walmart e Carrefour no Brasil. Porém, ela também marcou o início de uma mudança de rumo que afastaria a Perini de sua essência original.
O impacto da nova gestão
Sob o controle da Cencosud, a Perini passou a ser administrada de forma padronizada, perdendo parte de sua identidade local.
Mudanças percebidas pelos clientes:
Substituição de insumos e fornecedores locais por opções mais baratas.
Redução da exclusividade de produtos, tornando-a parecida com supermercados comuns.
Aumento de preços, muitas vezes sem manter o mesmo padrão de qualidade.
O público, acostumado com a tradição da marca, passou a perceber uma queda na experiência de consumo, tanto no atendimento quanto na qualidade dos produtos.
A pandemia e a força do atacarejo
A partir de 2020, a pandemia acelerou transformações no varejo. Enquanto redes como Assaí e Atacadão cresceram com o modelo de atacarejo, a Perini, que ocupava um espaço intermediário entre supermercado e delicatessen, ficou deslocada no mercado.
Os consumidores passaram a buscar:
Preços mais competitivos.
Compras em volume.
Praticidade no delivery e no e-commerce.
A Perini, com lojas físicas grandes e produtos premium, não conseguiu se adaptar com a mesma velocidade.
O fechamento das lojas e a perda de espaço
O auge do declínio veio entre 2021 e 2023, quando várias lojas foram fechadas. A tradicional unidade da Barra fechou em 2021, causando comoção entre os clientes mais antigos. Em 2023, todas as lojas situadas em shoppings centers também encerraram atividades.
Hoje, restam apenas três unidades em Salvador: Graça, Pituba e Costa Azul.
Causas apontadas:
Contratos de aluguel muito altos em pontos estratégicos.
Reposicionamento da marca pela Cencosud.
Queda na fidelidade dos consumidores.
A memória afetiva dos consumidores
Apesar do declínio, a Perini ainda ocupa um lugar especial no imaginário dos baianos.
A Coxinha da Perini continua sendo lembrada como um símbolo gastronômico da cidade.
Muitos relatam que frequentar a Perini fazia parte de rituais familiares, encontros sociais e celebrações.
O fechamento das unidades trouxe uma sensação de perda cultural, como se um pedaço da história de Salvador tivesse se apagado.
O “Almacen Pep”: a continuidade do legado
Após a venda da Perini, a família Faro criou o Almacen Pep, com quatro unidades em Salvador. O conceito resgatou parte da proposta original: produtos premium, atendimento diferenciado e foco em exclusividade.
Embora menor em escala, o Almacen Pep mostra como ainda existe demanda por esse modelo de mercado de luxo.
Análise: por que a Perini caiu?
A queda da Perini pode ser explicada por uma combinação de fatores:
Perda de identidade de marca após a venda.
Desalinhamento com as novas tendências de consumo no Brasil.
Gestão centralizada e distante da realidade cultural de Salvador.
Aumento da concorrência, tanto no varejo popular quanto no segmento premium.
Impacto da pandemia, que acelerou mudanças que a Perini não acompanhou.
O futuro da Perini
O contrato entre a Cencosud e o Clube Baiano de Tênis, onde está uma das unidades mais tradicionais, foi renovado até 2036. Isso indica que a marca ainda terá sobrevida.
No entanto, especialistas acreditam que, para sobreviver, a Perini precisará:
Reforçar sua identidade local, valorizando o que a tornou única.
Apostar em novas experiências de consumo (cafés, eventos gastronômicos, delivery premium).
Readequar preços e qualidade para reconquistar a confiança dos clientes.
A trajetória da Perini é um exemplo emblemático de como marcas tradicionais podem perder espaço quando deixam de se reinventar ou se distanciam de suas raízes. O que começou como uma padaria de bairro tornou-se um império do varejo baiano, mas perdeu relevância diante das mudanças econômicas e sociais.
Ainda assim, a Perini permanece viva na memória de Salvador. Seja pela coxinha icônica, pelos encontros em suas lojas ou pelo status que representava, ela continua sendo lembrada como um patrimônio afetivo da cidade.
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