O balanço trimestral da Nvidia, uma das maiores fabricantes de chips e referência mundial em inteligência artificial, provocou um forte movimento de alívio no mercado financeiro global nesta quarta-feira. Segundo análise da comentarista econômica Rita Mundim, da CNN Brasil, os resultados superaram expectativas e afastaram, por ora, o temor de uma possível “bolha da IA” nos moldes da crise das empresas de internet no início dos anos 2000.
A empresa reportou um crescimento de 65% no lucro em relação ao mesmo período do ano passado, com ganho por ação muito acima das previsões: o mercado esperava US$ 0,26, mas o resultado veio em US$ 1,30. Além disso, o guidance divulgado pela própria Nvidia — projeções para o próximo trimestre — veio ainda mais otimista que o esperado pelos analistas.
Com o anúncio, as ações da companhia subiam quase 5% no after market nos Estados Unidos, impulsionando as projeções para os principais índices, especialmente Nasdaq e S&P 500. Segundo Rita Mundim, dirigentes do Federal Reserve já demonstravam preocupação com o impacto que um eventual resultado ruim traria ao mercado, reforçando a importância da Nvidia no atual ciclo econômico global:
“Existia o medo de uma venda forte, porque todos estavam na dúvida: estamos diante de uma bolha da IA ou não? O resultado da Nvidia indica que ainda há muito caminho pela frente”, destacou Mundim.
Rombo das estatais brasileiras pressiona orçamento e pode gerar “maquiagem fiscal”
No cenário nacional, o clima é bem diferente. A Instituição Fiscal Independente (IFI), vinculada ao Senado, acendeu um alerta sobre o rápido agravamento das contas das empresas estatais. Segundo Mundim, algumas companhias — sobretudo os Correios — correm risco de não fechar o ano sem ajuda financeira do governo.
A estatal tenta, de forma emergencial, um empréstimo de R$ 10 bilhões, podendo precisar de até R$ 20 bilhões para cobrir despesas operacionais. O impasse está na taxa de juros: os bancos querem juros mais altos que aqueles que o Tesouro está disposto a garantir como avalista.
Com mais de 85 mil funcionários e predominância de despesas administrativas, os Correios são o exemplo mais crítico de um problema que atinge outras estatais não dependentes. Essas empresas, teoricamente, não podem receber dinheiro público para custeio — mas o rombo pode virar despesa no orçamento se forem socorridas.
“Se o governo tem que colocar dinheiro, elas deixam de ser não dependentes. Aí o empréstimo vira maquiagem fiscal”, alertou Mundim.
O déficit projetado de algumas estatais piorou em aproximadamente R$ 2,7 bilhões entre o terceiro e o quarto bimestres. Enquanto o governo esperava superávit de R$ 700 milhões para os Correios, agora prevê déficit de R$ 2,4 bilhões — mas o saldo real já supera R$ 4,5 bilhões negativos.
O risco dessa conta recair sobre o orçamento federal aumenta a pressão num momento em que o governo tenta entregar meta de resultado primário reduzida para 0,25% do PIB, após abandonar a promessa de déficit zero.
Enquanto a Nvidia impulsiona o mercado global e fortalece a narrativa de crescimento sustentável da IA, o Brasil enfrenta aumento de gastos, baixa eficiência administrativa nas estatais e possível risco de “contabilidade criativa” para não estourar o orçamento federal. Para os investidores, o contraste entre o cenário internacional e o doméstico deve influenciar decisões nas próximas semanas.
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