O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a defender publicamente o tarifaço de 50% sobre produtos brasileiros, incluindo a carne bovina. Em uma publicação recente nas redes sociais, Trump afirmou que os pecuaristas norte-americanos “estão indo bem” graças às medidas protecionistas implementadas durante sua gestão, que restringem a entrada de produtos brasileiros no mercado dos EUA.
Trump declarou ainda que, se não fosse por sua política de tarifas, “os pecuaristas ainda estariam na terrível situação que viviam há 20 anos”. A medida, segundo ele, teria fortalecido o setor agropecuário interno, mas trouxe efeitos colaterais para a economia.
Efeito colateral: inflação pressionada e carne mais cara nos EUA
Apesar do tom comemorativo, o próprio presidente reconheceu que o aumento das tarifas impactou os preços dos alimentos, contribuindo para elevar a inflação nos Estados Unidos. “Seria bom se os preços da carne diminuíssem”, escreveu Trump, em tom de ironia.
Segundo o colunista de economia Felipe Salto, o discurso de Trump “briga com a lógica mais básica da economia: as leis da oferta e da procura”. O analista explicou que, ao restringir a importação de carne brasileira, Trump reduziu a oferta interna sem que a demanda diminuísse o que naturalmente levou ao aumento dos preços.
“Os produtores locais não têm capacidade de suprir toda a demanda, e o resultado é a alta nos preços. Se ele quer conter a inflação, precisará rever parte desse tarifaço”, destacou Salto.
Negociações com o Brasil podem aliviar tensões comerciais
A alta da inflação e o impacto nas exportações brasileiras colocaram o tema na pauta diplomática. Uma reunião direta entre Trump e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva está prevista para os próximos dias, segundo fontes ligadas ao Itamaraty.
Conversas anteriores entre o chanceler Mauro Vieira e o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, já indicam abertura para diálogo. A expectativa é de que as tratativas possam resultar em uma flexibilização parcial das tarifas sobre alguns produtos estratégicos, como carnes e grãos.
“É um tema sensível para ambos os países. Para o Brasil, representa uma questão de exportação e receita; para os Estados Unidos, um problema de custo de vida e popularidade política”, observou Felipe Salto.
Governo brasileiro busca alternativas fiscais e ajustes no orçamento
Além do impacto do comércio exterior, a discussão sobre equilíbrio fiscal também dominou o noticiário econômico. A equipe do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, prepara uma nova proposta de ajuste orçamentário para 2026, dividida em dois projetos.
O primeiro foca no controle de gastos e compensações tributárias, enquanto o segundo trata da tributação de empresas de apostas esportivas (bets) e fintechs. A estratégia visa evitar o erro da medida provisória anterior, que concentrava múltiplos temas e acabou travada no Congresso.
Segundo Felipe Salto, essa nova abordagem é “mais pragmática e politicamente viável”.
“Separar os temas facilita a tramitação e reduz resistências. A taxação de fintechs e bets é bem recebida, pois tem apelo popular e enfrenta pouca oposição. Já o controle de gastos exige mais negociação”, explicou o economista.
Salto avaliou ainda que, embora a medida não resolva por completo o déficit fiscal de 2026, representa um “passo importante na direção de maior responsabilidade orçamentária”.
A combinação de tarifas protecionistas nos EUA e ajustes fiscais no Brasil ilustra o cenário de tensão e cautela que marca o início das negociações bilaterais e a formulação de políticas econômicas internas.
Enquanto Trump tenta equilibrar popularidade e inflação, o governo brasileiro busca alternativas para estabilizar as contas públicas e manter o crescimento em meio a um contexto global de incertezas.
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