O mercado financeiro brasileiro entrou em modo de alerta máximo na véspera da decisão do Copom. Em meio a um cenário de forte instabilidade global e doméstica, o Tesouro Nacional realizou a maior intervenção em mais de uma década, movimentando mais de R$ 42 bilhões em operações com títulos públicos.
A estratégia teve um objetivo claro: conter a disparada dos juros futuros, que vinham reagindo ao aumento das incertezas envolvendo inflação, petróleo e riscos políticos e sociais.
Apesar do alívio momentâneo, o cenário segue longe da normalidade — e o mercado já ajustou suas expectativas para a taxa Selic.
Juros futuros entram em estresse e exigem ação do Tesouro
O mercado de contratos de DI futuro — que antecipa as expectativas para juros e inflação — chegou a apresentar sinais de disfuncionalidade, com taxas abrindo de forma acelerada.
Diante disso, o Tesouro atuou de forma agressiva:
R$ 42 bilhões movimentados em recompra de títulos
Nova operação anunciada já na manhã seguinte
Leilões envolvendo LTN e NTN-F (prefixados)
Maior intervenção desde pelo menos 2013
Essa atuação ajudou a reorganizar o mercado no curto prazo, reduzindo distorções e oferecendo liquidez em um momento crítico.
Ainda assim, a pressão não desapareceu.
Mercado muda projeção e reduz apostas de corte da Selic
Com o aumento das incertezas, o mercado passou a rever rapidamente suas expectativas.
Probabilidades para a decisão do Copom:
| Cenário | Probabilidade |
|---|---|
| Corte de 0,25% | 80% |
| Manutenção | 20% |
Além disso, a taxa terminal da Selic — ou seja, o nível final esperado do ciclo — subiu para cerca de:
13,75% ao ano
Isso representa uma mudança importante em relação às expectativas anteriores, que indicavam cortes mais intensos.
Petróleo, guerra e risco de greve pressionam inflação
O principal gatilho dessa reprecificação veio de fatores externos e internos:
Fatores de pressão no cenário atual:
Escalada do conflito no Oriente Médio
Risco de fechamento do Estreito de Ormuz
Disparada nos preços do petróleo
Possível paralisação dos caminhoneiros no Brasil
Esses elementos aumentam o risco de inflação, especialmente via combustíveis e logística, o que impacta diretamente as decisões do Banco Central.
Tesouro tenta evitar “bagunça” no mercado
A atuação do Tesouro foi bem recebida por gestores e participantes do mercado, principalmente porque:
Evitou movimentos desordenados nas taxas
Reduziu perdas de investidores posicionados em queda de juros
Restabeleceu parcialmente a liquidez
Fundos multimercados, que estavam fortemente posicionados na queda da Selic, foram surpreendidos pelo novo cenário e pressionados pela abertura das taxas.
O que esperar do Copom agora
Apesar da expectativa majoritária de corte de 0,25 ponto percentual, o foco do mercado está na comunicação do Banco Central.
Os principais pontos de atenção são:
1. Projeções de inflação (IPCA)
A tendência é de revisão para cima, refletindo o impacto do petróleo e do cenário global.
2. Tom do comunicado
Espera-se uma postura mais cautelosa e dependente de dados.
3. Indicação sobre próximos passos
O BC deve evitar se comprometer com novos cortes, sinalizando incerteza.
Curva de juros ainda mostra tensão
Mesmo após a intervenção:
Juros curtos recuaram levemente (entre 0,10% e 0,20%)
Juros longos seguem pressionados
Contratos para 2030 e 2031 ainda apresentam volatilidade
Isso mostra que o mercado continua sensível a qualquer nova informação — seja doméstica ou internacional.
O que isso significa para o investidor
O cenário atual reforça alguns pontos importantes:
O ciclo de queda da Selic deve ser mais lento
Renda fixa continua atrativa, especialmente prefixados e IPCA+
Volatilidade nos juros pode gerar oportunidades
Ativos sensíveis à inflação tendem a ganhar relevância
Para o investidor, o momento exige cautela, mas também abre espaço para estratégias mais sofisticadas.
A maior intervenção do Tesouro em mais de uma década mostra o nível de estresse enfrentado pelo mercado brasileiro.
Mesmo com o alívio pontual, o cenário segue desafiador: inflação pressionada, riscos externos elevados e incertezas domésticas ainda no radar.
A decisão do Copom será apenas o primeiro capítulo — o verdadeiro impacto virá da mensagem que o Banco Central decidir transmitir ao mercado.
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