Durante o evento Mov Infra, o CEO da Ultra Cargo, Fúvius Tomelin, destacou os principais desafios enfrentados pelo setor de infraestrutura e logística no Brasil. A discussão, mediada pelo diretor de jornalismo Daniel Hitner, abordou gargalos operacionais, a dificuldade de investimento em um cenário de juros altos (15%) e o impacto crescente da criminalidade organizada nas operações portuárias e de combustíveis.
Expansão e gargalos em Santos e Itaqui
Tomelin explicou que, apesar de o setor contar com capacidade adequada de armazenamento de granéis líquidos, o principal gargalo está na infraestrutura portuária para atracação de navios.
“O problema não está na tancagem, mas nos píeres. Há filas de até 10 dias em Santos, o que aumenta o custo logístico e impacta o consumidor”, destacou o executivo.
A Ultra Cargo, maior operadora independente de terminais de granéis líquidos do país, acaba de expandir em 34 mil m³ sua capacidade no Porto de Santos, mas enfrenta o mesmo desafio de congestionamento que outros portos, como Itaqui (MA). Esses gargalos aumentam o custo de importação de combustíveis e reduzem a eficiência operacional.
Juros altos e inviabilidade de novos projetos
Com o CDI a 15%, o ambiente de investimento em infraestrutura torna-se cada vez mais restrito. Tomelin lembrou que, nos últimos 30 anos, o Brasil teve juros abaixo de dois dígitos em apenas oito.
“Projetos de infraestrutura têm retorno lento. Quando os juros estão altos por muito tempo, os investimentos se tornam inviáveis e o país perde competitividade”, afirmou.
Segundo ele, um ciclo consistente de redução da taxa básica de juros é essencial para destravar novos projetos de longo prazo e estimular o desenvolvimento de ativos logísticos e portuários.
Crime organizado e a “operação Carbono Oculto”
Outro ponto de alerta levantado por Tomelin foi a influência crescente do crime organizado na cadeia de combustíveis, especialmente após a operação Carbono Oculto, que revelou esquemas de sonegação fiscal, adulteração e lavagem de dinheiro.
“O setor vem sendo poluído por empresas ligadas a atividades ilegais, que distorcem a concorrência e prejudicam companhias sérias”, disse o executivo.
O CEO defendeu a aprovação urgente do projeto de lei que combate o “devedor contumaz”, que penaliza empresas que deixam de recolher tributos propositalmente para obter vantagem competitiva — prática recorrente nas investigações ligadas à Carbono Oculto.
Segurança física e logística em xeque
Durante o evento, outros líderes do setor, como os CEOs da Rumo, Hidrovias do Brasil e Motiva, reforçaram a preocupação com a segurança operacional. Casos de “pirataria fluvial” e ataques a comboios foram relatados, com empresas sendo obrigadas a contratar agentes armados para garantir a integridade das operações.
O debate reforçou que a insegurança física, e não apenas jurídica, passou a ser um dos principais entraves ao investimento e à eficiência logística no país.
Urgência por ambiente estável e seguro
A fala de Tomelin resume o cenário atual da infraestrutura brasileira: juros altos, gargalos logísticos e insegurança travam o crescimento e comprometem a competitividade nacional. A solução, segundo ele, passa por estabilidade macroeconômica, cooperação público-privada e rigor no combate ao crime e à sonegação.
“Infraestrutura é legado. Com juros sustentavelmente baixos e regras claras, o Brasil pode voltar a crescer com solidez”, concluiu o executivo.
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