A economia brasileira começa a dar sinais mais claros de desaceleração após um período de recuperação acima do esperado desde 2021. Mesmo com inflação sob controle e mercado de trabalho resiliente, o alto custo do crédito, a estagnação nos investimentos e o risco fiscal crescente apontam para um cenário de crescimento mais lento nos próximos trimestres.
Serviços ainda sustentam o PIB, mas com fôlego limitado
O setor de serviços, especialmente viagens e transportes, continua sendo o principal motor da atividade econômica. A combinação entre o aumento da renda das famílias, ainda puxada por um mercado de trabalho aquecido, e a retomada do agro contribuíram para o bom desempenho do segundo trimestre. No entanto, especialistas já veem sinais de esgotamento dessa força.
Segundo a economista Alessandra Ribeiro, da Tendências Consultoria, a resiliência dos serviços tem prazo para acabar. “O mercado de trabalho reage com defasagem. Quando a atividade perde tração, o emprego também começa a desacelerar”, afirma. Com isso, o consumo das famílias tende a cair, pressionando a economia como um todo.
Mercado de trabalho muda de perfil e mascara fragilidade
Apesar da taxa de desemprego historicamente baixa, o cenário do mercado de trabalho é mais complexo do que aparenta. Dados do CAGED mostram que a geração de empregos com carteira assinada é a menor dos últimos cinco anos. Em contrapartida, cresce o número de trabalhadores informais ou por conta própria com CNPJ, refletindo uma mudança estrutural nas relações trabalhistas.
A reforma trabalhista de 2017 e a explosão dos aplicativos impulsionaram essa transformação. “Essas novas formas de trabalho sem vínculo tradicional explicam parte do bom desempenho recente do emprego, mesmo com juros tão altos”, analisa Ribeiro. Ainda assim, ela alerta: “Com a perda de fôlego da atividade, mesmo essas novas modalidades devem sentir o impacto.”
Inflação desacelera, mas Banco Central mantém cautela
A inflação tem apresentado sinais positivos, com ajuda da queda das commodities e valorização do real, e já registrou até deflação em alguns meses. Mesmo assim, as projeções ainda indicam um IPCA acima da meta de 3% perseguida pelo Banco Central: 4,9% em 2025 e algo próximo disso para 2026.
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, já sinalizou que os juros devem permanecer altos por mais tempo, frustrando quem esperava cortes ainda em 2025. A expectativa da Tendências é de uma redução gradual a partir de janeiro, com a Selic indo para algo ligeiramente abaixo de 13%.
Incertezas políticas e risco fiscal travam queda dos juros
Além dos fatores internos, como inadimplência elevada e fragilidade no consumo, o cenário externo e político adiciona incertezas. As tensões envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro e possíveis sanções ao Brasil contribuem para instabilidade.
No campo fiscal, o horizonte é ainda mais preocupante. Mesmo que a meta de 2025 seja cumprida parcialmente, as projeções para 2026 e 2027 indicam forte deterioração. “Sem agenda para conter o crescimento dos gastos obrigatórios, o país pode enfrentar um ‘shutdown’ da máquina pública”, alerta Ribeiro. Esse cenário eleva os juros futuros, encarece o crédito e desestimula investimentos.
Confiança e investimentos em queda: o ciclo vicioso da estagnação
A taxa de investimento caiu nos últimos trimestres, sinalizando perda de confiança por parte das empresas. Isso compromete a capacidade de crescimento sustentável do país, já que sem investimentos não há aumento da produtividade nem geração de empregos de qualidade.
Para a economista, o ciclo vicioso entre desconfiança fiscal, juros altos e baixo crescimento precisa ser rompido. “A agenda para isso já existe, mas falta vontade política para implementá-la. Precisamos investir em infraestrutura, capital humano e ambiente de negócios. Sem isso, o Brasil continuará preso aos altos e baixos que o caracterizam há décadas.”
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