O VI GT11 é um fundo de participação em ativos de geração e transmissão de energia que se tornou um dos casos mais controversos do setor elétrico nos últimos anos. Voltado para investidores qualificados, o ativo reúne usinas eólicas e pequenas centrais hidrelétricas (PCHs), operando exclusivamente no segmento de geração e transmissão — sem exposição à distribuição.
Nos últimos meses, o fundo passou por forte turbulência, mas os números atuais revelam um cenário que pode mudar completamente a percepção do mercado.
Desconto patrimonial chama atenção
Com base na última atualização patrimonial (30 de janeiro de 2026), o valor patrimonial por cota está próximo de R$ 70, enquanto o preço de mercado gira na faixa de R$ 42.
Isso representa:
Desconto aproximado de 40% sobre o valor patrimonial
Potencial teórico de valorização superior a 60%
Mas o foco principal não está apenas na possível valorização da cota — e sim na geração de renda futura.
Taxa interna de retorno impressiona
Considerando o preço atual, o retorno implícito estimado do portfólio gira em torno de:
IPCA + 15,5% ao ano
Aproximadamente 19% ao ano em termos nominais
Em comparação com empresas do setor elétrico listadas em bolsa, o prêmio de risco é significativamente superior, refletindo tanto a complexidade do ativo quanto o histórico recente de problemas operacionais.
Curtailment: o impacto que virou oportunidade
Um dos principais fatores que pressionaram os resultados foi o chamado “curtailment” — cortes de geração determinados pelo Operador Nacional do Sistema.
Em janeiro, cerca de 10,7 MW foram cortados, representando aproximadamente 59% do total de energia frustrada no período. Se não houvesse cortes, o fundo teria gerado cerca de 5,5% acima da meta contratual.
O ponto crucial é que parte desses cortes é reembolsável.
Em dezembro de 2025, houve reversão de provisões relacionadas a esses cortes, resultando em uma entrada extraordinária de aproximadamente R$ 34 milhões em um único mês — valor equivalente a quase oito meses de receitas regulares anteriores.
Isso muda completamente a leitura do fluxo de caixa.
Contratos renovados até 2048: previsibilidade de longo prazo
Outro evento relevante foi a renovação contratual dos ativos hídricos vinculados ao regime Proinfra.
O novo contrato terá vigência de 2028 até 2048 (20 anos) e prevê remuneração próxima de R$ 406 por MW — valor significativamente superior ao praticado anteriormente.
Além disso, os ativos estão inseridos no Mecanismo de Realocação de Energia (MRE), que mitiga risco hídrico ao redistribuir geração entre usinas. Isso aumenta a previsibilidade de receita, mesmo em cenários de baixa vazão.
Essa combinação traz visibilidade de fluxo de caixa por mais de duas décadas.
O erro que derrubou a cota
O grande ponto de ruptura foi a descoberta das APRs (ações preferenciais resgatáveis), com fluxo estimado próximo de R$ 250 milhões.
Essas obrigações não estavam claramente precificadas pelo mercado. Quando vieram à tona, a cota despencou de patamares próximos de R$ 70 para abaixo de R$ 35 em questão de dias, chegando a tocar R$ 28 em determinado momento.
A solução envolveu:
Venda de ativos de transmissão
Reestruturação de dívida
Plano de desalavancagem progressiva
Segundo projeções atuais, o fundo afirma ter capacidade de honrar os compromissos.
Projeção de dividendos: cenário-base e cenário otimista
A estimativa de distribuição evolui conforme o processo de desalavancagem e redução de restrições de geração.
Projeções indicativas:
| Ano | Dividendos estimados por cota | Yield sobre R$ 42 |
|---|---|---|
| 2026 | R$ 3 a R$ 5 | 7% a 12% |
| 2028 | Aproximadamente R$ 6 | 14% |
| 2032 | R$ 11 a R$ 13 | 26% a 31% |
Se os dividendos alcançarem R$ 11 a R$ 13 anuais, o investidor que comprou a R$ 42 pode receber entre 26% e 31% ao ano em rendimento.
Em um exemplo simples:
1.000 cotas
Investimento aproximado de R$ 42.000
Dividendos de R$ 12 por cota = R$ 12.000 ao ano
Isso representa recuperação significativa do capital em poucos anos, caso o cenário projetado se confirme.
Risco elevado exige perfil adequado
É importante reforçar que o VI GT11 é destinado a investidores qualificados e envolve riscos relevantes:
Risco regulatório
Risco operacional
Dependência de reembolsos de curtailment
Histórico de comunicação controversa
Por outro lado, o desconto patrimonial, a renovação contratual e a desalavancagem em andamento criam um cenário de assimetria interessante para quem entende o risco.
Oportunidade rara ou armadilha sofisticada?
O VI GT11 reúne características que raramente aparecem juntas:
Desconto patrimonial expressivo
Contratos de longo prazo até 2048
Possível normalização operacional
Projeção de dividendos potencialmente acima de 30% ao ano
Ao mesmo tempo, carrega um passado recente turbulento e exige análise profunda.
Para investidores avançados que compreendem a dinâmica do setor elétrico e toleram volatilidade, pode representar uma oportunidade de retorno extraordinário.
Para os demais, é um ativo que exige estudo antes de qualquer decisão.
E no setor elétrico, uma coisa é certa: quem entende a estrutura de contratos e fluxo de caixa enxerga oportunidades antes do mercado reagir.
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