Durante anos, ganhou força no mercado a ideia de que bancos se beneficiam automaticamente de juros elevados. O raciocínio parece simples: se os bancos emprestam dinheiro e cobram juros, quanto maior a taxa, maior o lucro. Mas os dados recentes mostram que essa lógica para no meio do caminho.
Entre janeiro e setembro de 2025, período em que a Selic permaneceu em 15% ao ano — um dos níveis mais altos em décadas — os resultados do setor financeiro começaram a mostrar sinais claros de deterioração. O exemplo mais emblemático veio do Banco do Brasil, mas o fenômeno não é exclusivo de uma única instituição.
Spread bancário encolhe quando os juros ficam extremos
O principal motor de lucro dos bancos continua sendo o crédito. Mais especificamente, o spread bancário: a diferença entre o custo de captação e a taxa cobrada nos empréstimos. Em teoria, juros altos ampliariam essa margem. Na prática, acontece o oposto quando a taxa sobe demais.
Com a Selic em patamar elevado por um período prolongado, o custo de captação dos bancos aumenta rapidamente. Ao mesmo tempo, o crédito fica caro demais para famílias e empresas, reduzindo a demanda e elevando o risco de inadimplência. Isso impede que os bancos repassem integralmente o aumento dos juros aos clientes sem comprometer a qualidade da carteira.
O resultado aparece diretamente nos balanços: margens pressionadas e maior necessidade de provisões.
Banco do Brasil: inadimplência no agro pressiona resultados
No balanço do terceiro trimestre de 2025, o Banco do Brasil deixou claro o impacto desse cenário. Entre janeiro e setembro, a margem financeira bruta caiu 2,4%, reflexo direto da elevação da Selic e da taxa referencial. Em termos simples, o banco passou a ganhar menos com a diferença entre o que cobra e o que paga para captar recursos.
Ainda mais preocupante foi o custo do crédito. As provisões para perdas com inadimplência dispararam 66,4% nos nove primeiros meses de 2025, alcançando cerca de R$ 4 bilhões. A principal pressão veio da carteira do agronegócio, tradicionalmente uma das maiores bases de clientes do banco, seguida pela carteira de pessoas físicas.
Com mais clientes deixando de pagar empréstimos, o risco aumentou e o resultado veio rápido: o lucro do Banco do Brasil caiu cerca de 60% no terceiro trimestre de 2025 em comparação ao mesmo período do ano anterior.
Não é só o Banco do Brasil: o setor inteiro sente o impacto
O movimento não ficou restrito a um único banco. Executivos do setor financeiro passaram a se manifestar publicamente contra a manutenção de juros tão elevados. O CEO do Itaú afirmou que o banco prefere operar em um ambiente de juros de um dígito, justamente porque o crédito é a principal fonte de lucro.
Segundo ele, juros altos por muito tempo elevam a inadimplência, reduzem o crescimento da carteira e tornam o ambiente mais arriscado. Com famílias endividadas e empresas enfrentando custos financeiros elevados, os bancos são forçados a adotar uma postura mais conservadora, o que limita a expansão do crédito.
A própria Febraban reforçou esse diagnóstico ao afirmar que juros elevados comprometem o endividamento de famílias e empresas e criam um ambiente pouco saudável para o crédito.
Por que juros mais baixos são melhores para os bancos
O cenário ideal para o setor financeiro não é de juros extremos, mas de previsibilidade. Uma Selic mais baixa e estável favorece o consumo, permite que empresas invistam, mantém a inadimplência sob controle e possibilita a expansão do crédito com risco menor.
Na prática, os bancos preferem ganhar menos por operação, mas compensar isso com maior volume e maior taxa de adimplência. É uma questão matemática: centenas de operações menores e bem pagas geram mais lucro do que poucas operações caras, com alto risco de calote.
Dois cenários, dois resultados completamente diferentes
Com a Selic a 15%, o crédito fica caro, o consumo desacelera, os investimentos são adiados, a inadimplência sobe e os bancos precisam provisionar mais, reduzindo o lucro. Já em um ambiente com juros ao redor de 9%, o crédito se torna mais acessível, o consumo reage, as empresas investem, o risco cai e a carteira cresce de forma saudável, impulsionando os resultados.
É por isso que, com a inflação convergindo, o mercado já começa a enxergar cortes de juros como estruturalmente positivos não apenas para a economia, mas também para o próprio setor bancário.
O que isso significa para o investidor em bancos
Para quem investe ou pretende investir em ações bancárias, a mensagem é clara: bancos não prosperam em ambientes extremos. Eles performam melhor em cenários previsíveis, com crescimento moderado, crédito saudável e inadimplência controlada.
Mesmo em momentos mais desafiadores, os grandes bancos seguem gerando caixa e pagando dividendos. Para o investidor de longo prazo, o foco não deve ser tentar antecipar decisões do Copom, mas sim construir posição com estratégia, paciência e visão de ciclo.
No fim das contas, os dados desmontam um dos maiores mitos do mercado financeiro: juros altos não são sinônimo de lucro para bancos. Em excesso, eles corroem margens, elevam riscos e comprometem resultados.
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