A ação FESA4, da Ferbasa, passou a chamar atenção do mercado após a identificação de um risco pouco precificado por investidores focados em renda. Apesar do histórico recente de dividendos elevados, a FESA4 pode pagar apenas cerca de 1% de dividend yield em 2026, mesmo mantendo caixa líquido robusto e baixo endividamento.
A mudança de cenário não está ligada a piora operacional, mas a restrições contratuais associadas a crédito subsidiado, que limitam a distribuição de dividendos enquanto o financiamento estiver ativo.
Financiamento barato muda completamente a tese da FESA4
A Ferbasa captou aproximadamente R$ 200 milhões em linhas de crédito com custo bastante reduzido — cerca de R$ 150 milhões via BNDES e R$ 50 milhões junto ao Itaú, com taxa próxima de 3,8% ao ano, 12 meses de carência e 48 meses para amortização.
Do ponto de vista financeiro, a decisão fortalece o caixa e melhora a estrutura de capital. No entanto, o contrato inclui uma cláusula que impede a companhia de distribuir dividendos acima do mínimo legal, evitando o uso de recursos subsidiados para remuneração de acionistas.
Política de dividendos trava pagamentos elevados na FESA4
Pelo estatuto social, a Ferbasa é obrigada a distribuir no mínimo 25% do lucro líquido ajustado. Com a cláusula do financiamento em vigor, a FESA4 fica limitada a esse patamar, mesmo possuindo caixa suficiente para dividendos maiores.
Na prática:
dividendos extraordinários ficam bloqueados;
o lucro do exercício passa a ser o principal limitador;
o histórico recente deixa de ser referência para projeções futuras.
Quanto a FESA4 pode pagar de dividendos em 2026
Para dimensionar o impacto dessa limitação, abaixo está uma simulação de dividendos da FESA4, considerando diferentes cenários de lucro líquido e o payout mínimo de 25%, já ajustado para o fato de a ação preferencial pagar 10% a mais em relação à ordinária.
Tabela – Projeção de dividendos da FESA4
| Cenário analisado | Lucro líquido estimado | Payout aplicado | Dividendos totais estimados | Dividendo por FESA4 | Dividend Yield estimado |
|---|---|---|---|---|---|
| Cenário conservador (manutenção) | R$ 120 milhões | 25% | R$ 30 milhões | ~R$ 0,09 | ~1,0% |
| Cenário intermediário | R$ 300 milhões | 25% | R$ 75 milhões | ~R$ 0,22 | ~2,5% |
| Cenário otimista (nível 2022) | R$ 780 milhões | 25% | R$ 195 milhões | ~R$ 0,60 | ~7,0% |
Mesmo no melhor cenário, FESA4 não volta aos dois dígitos
Mesmo em um cenário extremamente favorável — com dólar elevado, preços altos das ferroligas e custos energéticos competitivos — a limitação contratual impede dividendos acima do mínimo legal.
Assim, nem no cenário otimista a FESA4 retorna aos dividend yields de dois dígitos, observados em ciclos anteriores.
Por que o passado da FESA4 induziu o mercado ao erro
Nos últimos anos, a FESA4 chegou a distribuir mais de 100% do lucro líquido, sustentada por forte geração de caixa e ausência de restrições contratuais.
Esse histórico levou parte do mercado a:
projetar dividendos passados no futuro;
desconsiderar mudanças no contexto financeiro;
tratar a ação como renda recorrente, mesmo em ciclos distintos.
Dividendo menor não significa empresa pior
A possível redução nos dividendos não indica deterioração da Ferbasa. A companhia segue com:
caixa líquido elevado;
baixa alavancagem;
geração de caixa superior ao lucro contábil.
Além disso, os lucros retidos podem ser distribuídos após o fim das restrições, especialmente a partir de 2028, o que pode alterar novamente o perfil de remuneração ao acionista.
O alerta para quem investe em FESA4 em 2026
A mensagem central é clara: FESA4 não deve ser tratada como ação de renda no curto prazo.
Quem comprou esperando dividendos elevados e previsíveis pode ser surpreendido. Já o investidor que entende o ciclo e avalia a empresa pelo valor econômico de longo prazo encontra uma companhia sólida, mas com uma tese diferente da que o mercado vinha precificando.
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