Uma operação de R$ 20 bilhões destinada a socorrer os Correios colocou o Banco do Brasil novamente no centro do debate. A participação do banco estatal num momento de forte pressão sobre seus indicadores levanta questões importantes sobre estratégia, risco político e impacto direto para o acionista.
Mesmo com taxa elevada — próxima de 136% do CDI — e garantia integral do Tesouro Nacional, o mercado reagiu com cautela. A preocupação não é o risco de calote, mas sim o que a operação revela sobre o papel do Banco do Brasil em um ano decisivo para a economia e para a política nacional.
A deterioração silenciosa: lucro em queda e rentabilidade mínima
O Banco do Brasil enfrenta uma das fases mais complexas dos últimos anos. No terceiro trimestre de 2025, o lucro líquido ajustado caiu em torno de 60%, ficando abaixo de R$ 3 bilhões. É um nível que não condiz com o tamanho, a eficiência e o histórico de rentabilidade da instituição.
O ROE, indicador crucial de retorno para o acionista, caiu para 8,4%, o pior patamar desde 2016. Para um banco desse porte, o ideal seria operar acima de 15%. Com o nível atual, o BB não cobre o próprio custo de capital e destrói valor para o investidor minoritário.
O guidance de lucro para 2025 também foi rebaixado: a projeção inicial de até R$ 25 bilhões foi reduzida para uma faixa entre R$ 18 bilhões e R$ 21 bilhões, refletindo o impacto do aumento das provisões e da piora na carteira de crédito.
O epicentro da crise: a explosão da inadimplência no agro
Durante anos, o Banco do Brasil foi reconhecido como “o banco do agro”. Mas a força virou fraqueza. Com uma carteira rural próxima de R$ 400 bilhões, qualquer mudança estrutural no setor impacta diretamente o resultado.
E foi exatamente o que aconteceu.
A inadimplência acima de 90 dias aumentou de 1,49% para 5,34% em apenas 12 meses.
Um salto de mais de 250%, indicando que o pior momento do agronegócio ainda não foi totalmente absorvido pelo balanço do banco.
As razões são conhecidas dentro do setor:
preços de soja e milho em queda, reduzindo margens;
produtores altamente alavancados, com dívidas acumuladas;
custos elevados de produção;
regras mais rígidas que dificultaram renegociações;
efeitos climáticos que prejudicaram safras recentes.
A inadimplência entre 15 e 90 dias — que funciona como um “termômetro do futuro” — saltou para R$ 15,5 bilhões, sugerindo que novos calotes podem pressionar ainda mais o banco em 2026.
Provisões explodindo: bilhões que deixam de virar lucro
Com o avanço da inadimplência, o Banco do Brasil teve de aumentar drasticamente o custo do crédito. A estimativa anual, inicialmente entre R$ 53 e R$ 56 bilhões, foi ajustada para a faixa de R$ 59 a R$ 62 bilhões.
Cada bilhão adicional reservado para perdas é um bilhão a menos no bolso do acionista.
Então por que o empréstimo aos Correios preocupa tanto?
A preocupação não está no risco de inadimplência — que é praticamente nulo com garantia do Tesouro — mas sim no timing da decisão.
O banco:
está com o lucro pressionado,
inadimplência elevada,
ROE em queda,
projeções rebaixadas,
necessidade de preservar capital,
sensibilidade eleitoral aumentando,
…e mesmo assim participa de uma operação bilionária para salvar uma estatal que acumula prejuízos consecutivos.
Para o investidor, isso envia um sinal claro:
o banco pode estar priorizando agendas governamentais em vez da eficiência econômico-financeira.
Essa leitura aumenta a percepção de risco político, um dos principais motivos pelos quais estatais costumam negociar com desconto no mercado.
O comportamento das ações: volatilidade e especulação
Nos últimos 30 dias, BBAS3 subiu cerca de 2,6%, acompanhando o movimento de recuperação parcial do Ibovespa.
Desde a mínima recente, a ação já avançou mais de 22%, mas ainda está longe do nível considerado ideal para um banco que tenta reverter um ciclo de deterioração.
A tendência atual é de oscilação forte, lateralização e movimentos especulativos motivados pelo ambiente eleitoral.
Há luz no fim do túnel?
Apesar do cenário complexo, existem três fatores que podem ajudar o Banco do Brasil na retomada após 2026:
1. Renegociação das dívidas do agro
A nova medida provisória permite reestruturações amplas e pode reduzir a inadimplência nos próximos meses.
2. Possível redução de risco político após o ciclo eleitoral
A percepção de interferência costuma diminuir em ciclos de alternância ou estabilização política.
3. Ação barata — mas por motivos reais
O Banco do Brasil negocia a múltiplos inferiores aos pares privados, mas o desconto reflete risco, não necessariamente oportunidade imediata.
É hora de comprar BBAS3?
Depende do horizonte e do apetite ao risco.
Curto prazo:
Não é atraente.
A combinação de ROE baixo, lucro pressionado, inadimplência crescente e ruído político reduz a previsibilidade e mantém o risco elevado.
Longo prazo:
Pode fazer sentido — mas com cautela.
Ações baratas tendem a subir quando a normalidade volta, porém é preciso aceitar que a recuperação pode ser lenta e cheia de obstáculos.
O ponto mais importante:
O empréstimo aos Correios não coloca o banco em risco financeiro direto, mas reforça uma percepção que o mercado já vinha precificando:
o Banco do Brasil continua vulnerável a interferências políticas, justamente no momento em que mais precisa focar em eficiência, capital e resultados.
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