O investidor brasileiro costuma associar dividendos a bancos, elétricas, saneamento e seguradoras. Mas um levantamento apresentado em esboço analisado pela reportagem chama atenção para outro movimento: empresas de setores menos tradicionais também aparecem entre os destaques quando o assunto é pagamento de proventos.
Entre os nomes citados estão Cury (CURY3), do setor de construção civil; Marcopolo (POMO4), fabricante de carrocerias de ônibus; e BB Seguridade (BBSE3), uma das companhias mais conhecidas entre investidores de dividendos. O ponto em comum entre elas está na combinação de lucro, distribuição de resultados e capacidade de manter pagamentos relevantes aos acionistas.
A presença desses papéis reforça uma ideia importante para quem acompanha a Bolsa: nem sempre as melhores pagadoras de dividendos estão nos setores mais óbvios. Em alguns casos, empresas com operação eficiente, crescimento de lucro e política de distribuição consistente podem se destacar mesmo fora do radar tradicional do mercado.
Por que essas ações chamaram atenção?
O grande ponto da análise é que dividendos não devem ser avaliados apenas pelo pagamento recente. Para uma empresa sustentar proventos ao longo do tempo, é preciso observar fatores como crescimento de lucro, geração de caixa, payout, endividamento e recorrência dos resultados.
Na prática, uma ação pode apresentar dividend yield elevado em determinado ano por causa de um pagamento extraordinário. Isso não significa, necessariamente, que o mesmo nível de distribuição será mantido nos anos seguintes. Por isso, investidores mais criteriosos costumam olhar uma janela maior de tempo e comparar os pagamentos com os fundamentos da empresa.
A própria B3 mantém o IDIV, índice que reúne ativos selecionados com base em critérios ligados à distribuição de dividendos e juros sobre capital próprio, funcionando como uma referência para acompanhar empresas com histórico de proventos na Bolsa brasileira.
As três empresas em destaque
| Empresa | Código | Setor | O que chama atenção | Principal ponto de atenção |
|---|---|---|---|---|
| Cury | CURY3 | Construção civil | Crescimento, foco em habitação popular e dividendos robustos | Sensibilidade a juros, crédito imobiliário e Minha Casa, Minha Vida |
| Marcopolo | POMO4 | Indústria / ônibus | Forte presença global e aumento recente dos proventos | Ciclo econômico, renovação de frota e custos industriais |
| BB Seguridade | BBSE3 | Seguros | Histórico forte de distribuição e payout elevado | Sustentação do lucro, seguros e dinâmica do Banco do Brasil |
Cury: construtora mostra força fora do setor tradicional de dividendos
A Cury é o caso mais curioso da lista porque foge do estereótipo clássico das pagadoras de dividendos. A companhia atua no setor de construção civil, com foco em empreendimentos voltados principalmente para faixas de renda atendidas por programas habitacionais e crédito imobiliário.
Segundo o esboço, a empresa tem origem em 1962 e se desenvolveu a partir de um modelo de negócios ligado à habitação popular, aproveitando linhas de financiamento e, posteriormente, a expansão de programas como o Minha Casa, Minha Vida.
O histórico recente de proventos também reforça o interesse do mercado. A página de Relações com Investidores da Cury registra pagamentos e dividendos a pagar em 2025 e 2026, incluindo valores relevantes por ação e montantes expressivos distribuídos aos acionistas.
O ponto central é que, quando uma construtora consegue combinar vendas, margens, controle de custos e lucro crescente, ela pode se transformar em uma geradora relevante de caixa. Isso abre espaço para dividendos, mesmo em um setor normalmente mais sensível a juros e ciclos econômicos.
O que observar em CURY3
Para o investidor que acompanha a ação, os principais pontos de atenção são:
- ritmo de vendas dos imóveis;
- margem bruta dos projetos;
- custo de construção;
- taxa de juros e crédito imobiliário;
- continuidade dos programas habitacionais;
- lucro líquido e geração de caixa;
- sustentabilidade dos dividendos.
Marcopolo: fabricante de ônibus aparece entre as surpresas
A Marcopolo é outro nome que foge do senso comum quando o assunto é dividendo. Fundada em Caxias do Sul, a companhia se consolidou como uma das grandes fabricantes de carrocerias de ônibus do mundo. O site institucional da empresa destaca sua posição global no desenvolvimento de soluções para transporte coletivo e sua trajetória de mais de sete décadas no setor.
No esboço analisado, a Marcopolo aparece como uma das empresas que mais surpreendem pela distribuição recente de proventos, especialmente por atuar em um segmento industrial, cíclico e dependente de demanda por renovação de frota.
Esse é justamente o ponto que torna o caso interessante. Uma indústria de ônibus não costuma ser lembrada de imediato quando o investidor pensa em renda passiva. Porém, quando há melhora operacional, recuperação de demanda, exportações e disciplina financeira, o resultado pode aparecer também na forma de dividendos.
Por que POMO4 entrou no radar?
A empresa se beneficia de fatores como:
- renovação de frotas urbanas e rodoviárias;
- demanda internacional por ônibus;
- presença em diferentes mercados;
- ganho de escala industrial;
- melhora de margens;
- geração de caixa em ciclos favoráveis.
Ainda assim, é preciso cautela. Empresas industriais podem ter resultados mais voláteis, especialmente quando dependem de custos de insumos, câmbio, demanda externa e investimentos de clientes públicos e privados.
BB Seguridade: a conhecida força dos dividendos
Diferente de Cury e Marcopolo, a BB Seguridade já é uma velha conhecida dos investidores que buscam dividendos. A empresa atua nos segmentos de seguros, previdência, capitalização e corretagem, com forte ligação ao ecossistema do Banco do Brasil.
O histórico de distribuição é um dos principais atrativos. A página de Relações com Investidores da BB Seguridade mostra pagamentos relevantes em 2025 e 2026, incluindo dividendos com payout elevado em determinados períodos.
Esse modelo costuma atrair investidores porque combina margens elevadas, operação enxuta e forte capacidade de conversão de lucro em caixa. Além disso, seguradoras podem apresentar retorno sobre patrimônio elevado quando conseguem manter eficiência operacional e boa gestão de riscos.
O que sustenta o interesse em BBSE3?
Entre os fatores observados pelo mercado estão:
- lucro líquido recorrente;
- payout historicamente alto;
- previsibilidade relativa do negócio;
- força da marca Banco do Brasil;
- presença em seguros, previdência e capitalização;
- capacidade de distribuir caixa aos acionistas.
Por outro lado, o investidor precisa acompanhar o ritmo de crescimento do lucro, a sinistralidade, a competição no setor de seguros e eventuais mudanças na política de distribuição.
Dividend yield alto nem sempre significa oportunidade
Um dos erros mais comuns entre investidores iniciantes é olhar apenas para o dividend yield. Esse indicador mostra quanto a empresa pagou em dividendos em relação ao preço da ação, mas não explica sozinho se o pagamento é sustentável.
Uma empresa pode ter dividend yield alto porque pagou um dividendo extraordinário, porque o preço da ação caiu muito ou porque houve algum evento não recorrente. Por isso, o ideal é cruzar esse número com outros indicadores.
Checklist para avaliar ações de dividendos
| Indicador | Por que importa |
|---|---|
| Lucro líquido | Sem lucro recorrente, o dividendo pode ser insustentável |
| Payout | Mostra quanto do lucro foi distribuído aos acionistas |
| Dívida | Empresas muito endividadas podem reduzir dividendos |
| Geração de caixa | Dividendos dependem de caixa real, não apenas lucro contábil |
| Histórico de pagamentos | Ajuda a identificar consistência ao longo dos anos |
| Setor de atuação | Alguns setores são mais previsíveis; outros são mais cíclicos |
| Crescimento do lucro | Dividendos tendem a ser mais sustentáveis quando o lucro cresce |
O que une Cury, Marcopolo e BB Seguridade?
Apesar de atuarem em setores muito diferentes, as três empresas citadas têm pontos em comum que ajudam a explicar o destaque:
- Lucro em crescimento ou em patamar elevado
Empresas que conseguem aumentar lucro ao longo do tempo têm mais espaço para remunerar acionistas. - Distribuição relevante de proventos
O pagamento de dividendos chama atenção quando representa uma parcela expressiva em relação ao preço da ação. - Modelos de negócio rentáveis
Mesmo em setores distintos, as companhias conseguem gerar resultados relevantes em seus mercados. - Capacidade de surpreender o mercado
Cury e Marcopolo mostram que empresas fora dos setores tradicionais também podem entrar no radar dos dividendos. - Importância da análise além do setor
O caso reforça que o investidor não deve olhar apenas para bancos, elétricas ou seguradoras ao buscar renda passiva.
O que o investidor deve fazer antes de tomar decisão?
Antes de comprar qualquer ação com foco em dividendos, é importante analisar os resultados mais recentes, ler comunicados oficiais, acompanhar balanços, verificar endividamento e entender se os pagamentos foram recorrentes ou extraordinários.
Também é essencial comparar empresas do mesmo setor e avaliar o preço da ação. Uma boa empresa pode não ser uma boa oportunidade se estiver cara demais. Da mesma forma, uma ação barata pode esconder riscos operacionais ou financeiros relevantes.
Cury, Marcopolo e BB Seguridade mostram que o mapa dos dividendos na Bolsa brasileira pode ser mais amplo do que muitos investidores imaginam. A lista reúne uma construtora, uma fabricante de ônibus e uma seguradora, três negócios muito diferentes, mas que aparecem no radar por pagamentos relevantes e fundamentos que merecem atenção.
O principal aprendizado é que dividendos não devem ser analisados apenas pelo setor ou pelo pagamento mais recente. O investidor precisa observar lucro, caixa, payout, histórico de distribuição e riscos do negócio. Só assim é possível separar empresas com dividendos sustentáveis de casos pontuais que podem não se repetir.
Aviso: este conteúdo tem caráter informativo e jornalístico. Não representa recomendação de compra ou venda de ações. Rentabilidade passada não garante resultados futuros. Antes de investir, avalie seu perfil, seus objetivos e, se necessário, consulte um profissional habilitado.
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