A destruição de imagens de santos católicos e símbolos sagrados de religiões de matriz africana colocou a Bahia no centro de uma investigação nacional sobre intolerância religiosa. Em Salvador e Santo Amaro, episódios de vandalismo registrados nos últimos meses provocaram indignação entre fiéis e passaram a integrar uma apuração determinada pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
Os casos fazem parte de uma série de denúncias que levaram o ministro Flávio Dino a determinar, em 30 de setembro de 2026, a abertura de investigação pela Polícia Federal. A decisão considera ataques registrados em diferentes estados, envolvendo igrejas, terreiros e estabelecimentos de artigos religiosos.
Mas a destruição de imagens religiosas também levanta uma questão mais profunda: o que leva alguém a atacar objetos considerados sagrados por outras pessoas?
A resposta envolve diferenças de crenças, conflitos históricos, preconceito e disputas por influência cultural e social. Embora as motivações individuais ainda dependam de investigação, pesquisadores apontam que agressões contra símbolos religiosos podem funcionar como instrumentos de intimidação e negação da identidade de determinadas comunidades.
Bahia registra ataques contra imagens de santos e símbolos de religiões de matriz africana
Um dos episódios que provocaram maior repercussão ocorreu em 22 de setembro, na Igreja Matriz da Paróquia Jesus Cristo Ressuscitado, localizada no bairro de Plataforma, no Subúrbio Ferroviário de Salvador.
Uma pessoa entrou no templo, retirou uma imagem de Santa Dulce dos Pobres de um altar lateral e a levou para a região próxima ao sacrário, onde a peça foi quebrada.
A comunidade religiosa classificou a destruição como vandalismo. O episódio provocou indignação entre frequentadores da igreja, que consideram a imagem uma representação importante da fé e da trajetória da santa baiana.
Outro caso foi registrado em Santo Amaro, no Recôncavo Baiano. Uma sacerdotisa denunciou um pastor pela destruição de um assentamento dedicado a Exu dentro de um terreiro. O episódio, ocorrido em agosto, também passou a integrar o conjunto de ocorrências mencionadas na decisão judicial.
Em Salvador, outro templo católico também registrou a destruição de uma imagem religiosa em setembro.
Apesar das diferenças entre os episódios, todos compartilham um elemento: a violação de objetos ou espaços que possuem significado espiritual para suas comunidades.
A existência de vários registros, entretanto, não significa que todos tenham a mesma motivação ou estejam conectados. Essa é uma das questões que as investigações precisam esclarecer.
Por que imagens religiosas se tornam alvo de ataques?
Para compreender esse tipo de violência, é necessário observar o papel que símbolos religiosos desempenham na sociedade brasileira.
Uma imagem de santo, um assentamento de orixá ou um objeto utilizado em cerimônias não representa apenas uma peça material. Para os praticantes de determinada tradição, esses elementos podem expressar pertencimento, memória, ancestralidade e vínculos espirituais.
Por isso, sua destruição pode provocar consequências que ultrapassam o prejuízo financeiro.
No caso das religiões de matriz africana, a violência também está relacionada a uma história de discriminação racial e perseguição cultural. Durante séculos, práticas religiosas de origem africana enfrentaram repressão, estigmatização e tentativas de apagamento.
Já os ataques contra imagens católicas podem envolver rejeição a determinadas expressões religiosas, hostilidade contra símbolos públicos de fé ou outras motivações individuais.
Existem tradições cristãs com interpretações diferentes sobre o uso de imagens em práticas religiosas. Essas divergências teológicas, porém, não significam que seus seguidores defendam atos de vandalismo.
A liberdade de discordar de uma crença não inclui o direito de destruir objetos sagrados, ameaçar praticantes ou impedir manifestações religiosas.
Disputa por poder e influência também aparece no debate
A interpretação dos ataques não se limita às diferenças entre religiões.
Em uma sociedade na qual a religião influencia tradições, relações comunitárias e debates públicos, determinados símbolos também podem representar identidade cultural e presença social.
Destruir uma imagem religiosa pode, em alguns contextos, assumir o significado de rejeitar a legitimidade de uma comunidade ou tentar enfraquecer sua presença em determinado espaço.
Essa dimensão ajuda a compreender por que episódios de intolerância religiosa frequentemente se misturam a conflitos políticos, tensões sociais e preconceitos históricos.
A Igreja Católica, por exemplo, exerceu influência decisiva na formação cultural brasileira. Paralelamente, comunidades de matriz africana construíram tradições que se tornaram fundamentais para a identidade da Bahia, especialmente em Salvador e no Recôncavo.
A convivência entre essas manifestações constitui parte importante da diversidade cultural do país.
Quando uma comunidade passa a considerar que apenas sua crença merece reconhecimento, diferenças religiosas podem deixar de ser encaradas como expressões legítimas de diversidade e se transformar em motivo de hostilidade.
Isso não permite, contudo, atribuir automaticamente objetivos políticos aos responsáveis por cada ataque. A identificação de motivações exige provas e investigação individualizada.
Vídeos antigos voltam a circular e ampliam sensação de violência
A repercussão dos episódios também ganhou força nas redes sociais, onde imagens de destruição de santos passaram a circular entre publicações recentes.
Parte desse material, entretanto, não mostra acontecimentos novos.
Um exemplo é o vídeo de uma mulher destruindo imagens religiosas dentro de uma igreja em Vitória, no Espírito Santo. Embora tenha voltado a circular recentemente, o episódio aconteceu em dezembro de 2023.
A gravação foi compartilhada novamente como se estivesse relacionada à sequência de ocorrências de 2026, aumentando a impressão de que todos os ataques aconteceram em um intervalo muito curto.
O problema é que vídeos antigos, quando publicados sem indicação de data, podem distorcer a percepção sobre a frequência atual desses crimes.
Isso não diminui a gravidade dos episódios recentes, mas reforça a importância de distinguir fatos novos de registros anteriores.
Também não há, até o momento, elementos suficientes para afirmar que todos os atos integram uma ação organizada ou coordenada.
STF determina investigação diante de ataques em diferentes estados
A repercussão interestadual das denúncias levou o ministro Flávio Dino a determinar a atuação da Polícia Federal.
Na decisão, o magistrado considerou a possibilidade de ocorrência de diferentes crimes, incluindo preconceito religioso, violência contra práticas de fé, ameaças, dano ao patrimônio, incêndio e violação de domicílio.
A Procuradoria-Geral da República também foi acionada para avaliar as providências cabíveis.
Os registros mencionados pelo STF incluem ocorrências na Bahia, em Minas Gerais, Mato Grosso, Alagoas, Paraná, Pará e Rio Grande do Sul.
A investigação deverá esclarecer as circunstâncias dos episódios, identificar possíveis responsáveis e verificar se existe alguma conexão entre determinados ataques.
O fato de um episódio envolver a destruição de uma imagem religiosa, isoladamente, não estabelece a motivação do autor. A caracterização de intolerância religiosa depende das circunstâncias e dos elementos reunidos em cada caso.
O que diz a legislação brasileira sobre intolerância religiosa?
A Constituição Federal assegura a liberdade de consciência e de crença, além de proteger o livre exercício dos cultos religiosos.
A legislação brasileira também prevê punições para condutas discriminatórias motivadas pela religião.
A Lei nº 7.716/1989, alterada pela Lei nº 9.459/1997, trata de crimes resultantes de discriminação ou preconceito, incluindo aqueles relacionados à religião.
O Código Penal também prevê o crime de ultraje a culto e impedimento ou perturbação de ato a ele relativo, incluindo situações de vilipêndio público de atos ou objetos de culto religioso.
Dependendo das circunstâncias, a destruição de imagens e objetos sagrados pode envolver ainda crimes contra o patrimônio.
A responsabilização exige a análise dos fatos, das provas e da conduta atribuída a cada pessoa investigada.
Ataques reacendem discussão sobre respeito à diversidade religiosa
Os episódios registrados na Bahia e em outros estados revelam um desafio que ultrapassa a proteção física de igrejas, terreiros e imagens religiosas.
A questão central envolve o reconhecimento do direito de diferentes comunidades expressarem suas crenças sem sofrer violência ou intimidação.
Na Bahia, onde manifestações católicas e religiões de matriz africana participam profundamente da história e da identidade cultural, a destruição de símbolos religiosos também provoca discussões sobre memória, pertencimento e convivência.
O avanço das investigações poderá esclarecer se os casos recentes possuem alguma relação entre si e quais fatores motivaram os responsáveis.
Enquanto essas respostas não chegam, os episódios deixam evidente uma distinção fundamental: discordâncias religiosas fazem parte da liberdade de pensamento, mas agressões contra pessoas, templos e objetos sagrados ultrapassam os limites desse direito.
A preservação da diversidade religiosa depende justamente dessa fronteira entre a liberdade de acreditar — ou não acreditar — e o dever de respeitar a existência das crenças dos outros.

