Enquanto boa parte dos investidores acompanha as ações que dispararam no mercado brasileiro, algumas das maiores empresas da Bolsa estão seguindo exatamente na direção contrária.
Vale, Klabin e Suzano registraram quedas em uma sessão marcada por forte desempenho de outros papéis.
No caso da Suzano, a pressão foi ainda maior: as ações chegaram a recuar mais de 5%.
À primeira vista, esse tipo de movimento costuma despertar uma pergunta imediata entre investidores:
a queda transformou essas empresas em oportunidades de compra?
A resposta exige mais cuidado.
Porque uma ação cair não significa necessariamente que esteja barata.
E, entre Vale, Klabin e Suzano, as diferenças de valuation, risco e exposição ao ciclo das commodities são significativas.
Dólar mais fraco ajuda a explicar a pressão sobre as ações
Um dos principais fatores por trás do desempenho negativo das três empresas foi o movimento do dólar.
Com entrada de capital estrangeiro e maior demanda pela moeda brasileira, o real ganhou força e o dólar caiu para perto de R$ 4,98.
Para muitas empresas brasileiras, isso pode parecer uma boa notícia.
Para exportadoras, porém, o efeito pode ser diferente.
Vale, Klabin e Suzano possuem receitas diretamente ligadas a produtos negociados internacionalmente em dólares.
A Vale vende minério de ferro.
A Klabin possui exposição importante ao mercado de celulose.
Já a Suzano tem seu negócio praticamente inteiro associado à produção e comercialização da commodity.
Quando o dólar perde valor diante do real, as receitas obtidas no exterior passam a valer menos quando convertidas para a moeda brasileira.
Essa dinâmica ajuda a explicar por que justamente essas empresas ficaram pressionadas enquanto boa parte do mercado avançava.
Mas o câmbio é apenas uma parte da história.
Vale cai, mas ainda não parece uma barganha
A Vale chegou a recuar mais de 3% durante o pregão, atingindo aproximadamente R$ 69,50 em determinado momento.
O movimento pode chamar atenção de quem estava esperando uma correção.
Mas, olhando exclusivamente para valuation, a empresa ainda não parece oferecer um desconto significativo.
A Vale é uma companhia extremamente dependente do ciclo de commodities.
Quando o minério de ferro está valorizado e a demanda internacional é forte, principalmente da China, a empresa pode gerar volumes enormes de caixa.
Nesses momentos, lucros sobem, dividendos aumentam e a companhia ganha forte capacidade de remunerar seus acionistas.
O problema é que exatamente o contrário também acontece.
Quando o minério entra em um ciclo desfavorável, resultados, geração de caixa e dividendos podem cair rapidamente.
Por isso, empresas desse tipo normalmente exigem uma margem de segurança maior.
Segundo os cálculos apresentados na análise, o preço-teto baseado em dividendos para a Vale estaria próximo de R$ 70.
Já uma estimativa de valor intrínseco apontaria aproximadamente R$ 69 por ação.
Outro cálculo, considerando uma remuneração superior à renda fixa, indicaria algo próximo de R$ 71.
Ou seja, a cotação atual está muito próxima desses valores.
Na prática, isso significa que a Vale poderia estar negociando perto do chamado preço justo.
E preço justo não é a mesma coisa que preço barato.
Por que Vale poderia ficar mais interessante abaixo dos R$ 60
Quando se trata de uma empresa altamente cíclica, pagar exatamente o valor estimado como justo pode deixar pouco espaço para erros.
Uma queda no minério, deterioração da economia chinesa ou mudança no cenário cambial pode afetar rapidamente o resultado.
Por isso, uma margem de segurança maior seria desejável.
Na análise apresentada, a região abaixo dos R$ 60 seria mais interessante.
E preços inferiores a R$ 50 representariam uma situação ainda mais confortável para quem busca uma entrada com maior proteção.
Isso não significa que a Vale necessariamente cairá até esses níveis.
Significa apenas que, perto de R$ 70, o investidor estaria pagando aproximadamente aquilo que a empresa parece valer nas condições atuais.
Depois da queda, portanto, Vale ainda não aparece como uma grande barganha.
Klabin tem um perfil diferente
A situação da Klabin é mais interessante.
Embora também esteja exposta à celulose, o negócio da companhia é significativamente mais diversificado.
Ela atua em diferentes segmentos de papel, embalagens e celulose, o que reduz parcialmente sua dependência de uma única commodity.
Essa diversificação faz com que a Klabin seja, em geral, menos volátil do que empresas totalmente concentradas em um único produto.
Ao mesmo tempo, a companhia passou por um período intenso de investimentos.
Boa parte do capital foi destinado à expansão de capacidade produtiva e projetos que ainda precisam amadurecer completamente.
É justamente aí que surge uma das principais teses envolvendo a empresa.
Depois de anos investindo, Klabin pode entrar em uma fase em que esses ativos passem a gerar mais caixa.
Se isso coincidir com uma recuperação do ciclo da celulose, o impacto sobre os resultados pode ser relevante.
Klabin está barata?
Apesar desse potencial, o valuation ainda pede cautela.
Com base em dividendos projetados, um dos cálculos apresentados aponta um preço próximo de R$ 3,10 por ação equivalente, sem margem de segurança.
Outro modelo, utilizando lucro líquido, indica valor próximo de R$ 3,90.
Já uma metodologia que compara o retorno esperado da ação com alternativas de renda fixa chegaria a aproximadamente R$ 4,17.
A diferença entre os modelos mostra um ponto importante.
Klabin não deve ser avaliada apenas pelos dividendos.
A companhia possui um componente de crescimento relevante e está atravessando um período em que investimentos realizados no passado podem começar a produzir resultados mais expressivos.
Mesmo assim, o preço atual ainda não representa necessariamente uma oportunidade excepcional.
Na avaliação apresentada, uma queda adicional aumentaria a margem de segurança.
Suzano despenca mais de 5% e chama atenção
É na Suzano, porém, que aparece o movimento mais forte.
As ações chegaram a cair mais de 5% durante o pregão.
E existem motivos claros para isso.
Suzano possui exposição praticamente integral à celulose.
A commodity é negociada internacionalmente em dólares.
Isso significa que a companhia fica diretamente exposta tanto à variação do preço internacional da celulose quanto à cotação da moeda americana.
Quando os dois fatores trabalham contra a empresa, a pressão pode ser intensa.
E é justamente essa concentração que torna Suzano mais volátil do que Vale e Klabin em determinados momentos.
Ao mesmo tempo, também é essa característica que pode criar oportunidades expressivas quando o ciclo muda.
Uma das produtoras mais eficientes do mundo
Apesar da volatilidade, Suzano ocupa uma posição extremamente competitiva na indústria global de celulose.
O Brasil possui condições naturais privilegiadas para o cultivo de eucalipto, matéria-prima fundamental para a produção da commodity.
O clima, a produtividade florestal e a velocidade de crescimento das árvores ajudam empresas brasileiras a operar com custos extremamente competitivos.
Suzano está entre as empresas que melhor aproveitam essa vantagem.
Isso permite que a companhia mantenha competitividade mesmo em momentos mais difíceis do ciclo.
Quando os preços da celulose sobem, essa estrutura de custos pode transformar rapidamente o negócio em uma poderosa geradora de caixa.
Mas é justamente por depender tanto do ciclo que a ação exige mais tolerância à volatilidade.
Suzano perto dos R$ 42 começa a apresentar assimetria
Com as ações negociadas próximas dos R$ 42, alguns indicadores começam a ficar mais interessantes.
Um deles é a relação entre preço e valor patrimonial.
Segundo os números apresentados, Suzano estaria sendo negociada perto de 1 vez seu valor patrimonial.
Em momentos bastante favoráveis para a companhia, esse múltiplo já foi muito maior.
Isso não significa que a ação automaticamente retornará aos níveis anteriores.
Mas mostra que o mercado atualmente está atribuindo uma avaliação muito mais conservadora ao negócio.
Pelo cálculo de valor justo apresentado, Suzano poderia valer aproximadamente R$ 56 por ação.
Considerando uma cotação próxima dos R$ 42, isso representaria um potencial de valorização na casa de 25% a 30% até o valor estimado.
Entre as três empresas analisadas, essa seria a maior margem.
Maior desconto também significa maior risco
É importante não confundir potencial de valorização com certeza de retorno.
Suzano pode apresentar o maior desconto entre as três empresas.
Mas também apresenta alguns dos riscos mais relevantes.
Se a celulose permanecer em um ciclo desfavorável durante muito tempo, os resultados podem continuar pressionados.
Se o dólar cair ainda mais, a conversão das receitas externas poderá continuar desfavorável.
E, caso esses fatores ocorram simultaneamente, a ação pode permanecer barata por bastante tempo.
Por isso, Suzano não é uma empresa adequada para qualquer perfil de investidor.
O papel tende a fazer mais sentido para quem entende o funcionamento dos ciclos de commodities e consegue suportar grandes oscilações no caminho.
O erro de analisar commodities como empresas comuns
Existe um erro recorrente ao avaliar companhias como Vale e Suzano.
Olhar apenas para múltiplos atuais.
Empresas de commodities possuem resultados altamente cíclicos.
Quando a commodity está muito valorizada, o lucro dispara.
Isso pode fazer indicadores como preço/lucro parecerem extremamente baixos.
Mas, muitas vezes, esse é justamente o momento em que os resultados estão próximos do pico.
Da mesma forma, quando o ciclo está ruim, o lucro diminui e os múltiplos podem parecer elevados.
Isso não necessariamente significa que a empresa esteja cara.
Por isso, avaliar companhias cíclicas exige observar uma combinação de fatores.
Preço da commodity, custos de produção, dívida, geração de caixa, câmbio e posição competitiva são alguns dos principais.
Vale, Klabin ou Suzano: qual parece mais barata?
O cenário das três empresas pode ser resumido de forma relativamente clara.
Vale parece estar negociando perto do valor considerado justo.
A companhia continua sendo uma das maiores produtoras de minério de ferro do mundo e possui enorme capacidade de geração de caixa em ciclos favoráveis.
Mas, nos preços atuais, o desconto parece limitado.
Klabin apresenta uma situação um pouco mais interessante.
Seu negócio é mais diversificado, parte importante dos investimentos recentes já foi realizada e existe potencial de aumento de geração de caixa nos próximos anos.
Ainda assim, uma margem de segurança maior poderia tornar a ação mais atrativa.
Suzano, por sua vez, apresenta o maior desconto aparente.
A empresa estaria sendo negociada próximo de R$ 42 diante de um valor justo estimado em aproximadamente R$ 56.
Isso cria uma assimetria mais interessante.
Mas o investidor precisa aceitar uma exposição muito maior ao dólar, ao preço da celulose e aos ciclos internacionais.
Enquanto todos olham para as altas, oportunidades podem estar nas quedas
Sessões de forte alta costumam direcionar a atenção dos investidores para as empresas que mais sobem.
É natural.
Uma ação avançando 10%, 15% ou 25% rapidamente domina as manchetes e desperta o medo de ficar de fora.
Mas esse nem sempre é o melhor lugar para procurar oportunidades.
Enquanto parte do mercado corre atrás das maiores altas, algumas empresas de qualidade podem passar por correções temporárias.
É justamente nesse momento que valuation e margem de segurança se tornam mais importantes.
Entre Vale, Klabin e Suzano, as quedas do dia contam histórias diferentes.
Vale parece mais próxima de um preço justo.
Klabin começa a ficar mais interessante.
Suzano apresenta o maior desconto — e também exige a maior tolerância ao risco.
No fim das contas, esse talvez seja o principal ensinamento de um dia em que praticamente tudo parece subir:
uma queda de 5% não transforma automaticamente uma ação em oportunidade — mas pode ser exatamente o ponto de partida para encontrá-la.
