A PetroReconcavo atravessa uma situação que chama a atenção dos investidores: enquanto o petróleo valorizou com força no segundo trimestre, as ações RECV3 encerraram junho cotadas a R$ 9,98, acumulando queda de 28,9% no período.
O desempenho ficou bem abaixo do Ibovespa, que recuou 8,2% no mesmo intervalo. A diferença mostra que a pressão sobre RECV3 não pode ser explicada apenas pela volatilidade da commodity.
Os números mais recentes apontam uma combinação de produção menor, contratos de proteção que limitaram a captura da alta do petróleo e custos maiores por barril. Ao mesmo tempo, a companhia continua lucrativa, gera caixa e mantém uma alavancagem considerada administrável.
É justamente essa mistura de preço descontado e desafios operacionais que divide as avaliações sobre a ação.
PetroReconcavo lucra R$ 203 milhões no segundo trimestre
A PetroReconcavo registrou lucro líquido de R$ 202,7 milhões no segundo trimestre de 2026. O resultado representou crescimento de 64% na comparação com os três primeiros meses do ano, mas queda de 15% diante do segundo trimestre de 2025.
A receita líquida ficou praticamente estável na comparação anual, em R$ 807,9 milhões. Já o EBITDA avançou 6%, para R$ 396,1 milhões, com margem de 49%.
No acumulado do primeiro semestre, porém, os números ficaram mais fracos:
| Indicador | 1º semestre de 2026 | Variação anual |
|---|---|---|
| Receita líquida | R$ 1,49 bilhão | -10% |
| EBITDA | R$ 706,4 milhões | -11% |
| Lucro líquido | R$ 326,5 milhões | -30% |
| Produção média | 24,2 mil boe/dia | -11% |
| Fluxo de caixa livre | R$ 154,1 milhões | +44% |
O contraste está no preço do petróleo. O Dated Brent médio alcançou US$ 103,85 por barril no segundo trimestre, alta de 53% sobre o mesmo período do ano anterior. Mesmo assim, o lucro líquido da companhia recuou.
Queda da produção é o principal sinal de alerta
A produção média da PetroReconcavo ficou em 24,1 mil barris de óleo equivalente por dia no segundo trimestre, recuo de 12% na comparação anual.
A produção de petróleo caiu 16%, enquanto a de gás natural diminuiu 5%. A retração atingiu tanto o Ativo Potiguar quanto o Ativo Bahia.
Segundo a companhia, o desempenho foi afetado por interrupções no fornecimento de energia, paradas em instalações, falhas pontuais em poços e menor produção em campos como Miranga e Tiê.
A empresa realiza projetos de workover, que envolvem intervenções para recuperar ou aumentar a produtividade dos poços, além de iniciativas de injeção de água e repressurização dos reservatórios. Os efeitos dessas medidas, entretanto, ainda precisam aparecer de forma consistente nos volumes produzidos.
Em julho, a produção média recuou novamente, para 23,7 mil boe por dia — queda de 1,4% em relação a junho. A PetroReconcavo atribuiu o movimento a uma manutenção programada de 12 dias na Estação de Compressores de Miranga e a eventos elétricos no complexo Sabiá.
Hedge protege contra quedas, mas limita a alta
Outro ponto importante para compreender RECV3 está nos contratos de hedge. Esses instrumentos são utilizados para proteger o caixa contra quedas bruscas do petróleo, mas podem limitar os ganhos quando a commodity dispara.
No fim de junho, a PetroReconcavo possuía 368 mil barris protegidos por contratos do tipo zero cost collar. O preço médio mínimo era de US$ 60 por barril, enquanto o teto estava em US$ 69,75.
A companhia também mantinha aproximadamente 4,2 milhões de barris protegidos por contratos NDF, distribuídos entre o segundo semestre de 2026 e o primeiro semestre de 2028. O preço médio contratado era de US$ 63,19 por barril.
No segundo trimestre, as liquidações dos contratos zero cost collar geraram efeito negativo de R$ 50 milhões. Os contratos NDF reduziram a receita líquida com petróleo em R$ 89,3 milhões no período.
Isso não significa que a proteção tenha sido necessariamente uma decisão equivocada. O hedge reduz a exposição a quedas da commodity e aumenta a previsibilidade financeira. O custo aparece quando o preço de mercado fica muito acima do valor contratado, como ocorreu durante parte do segundo trimestre.
Custo por barril aumentou
A produção menor também elevou o custo unitário da operação. O lifting cost chegou a US$ 16,80 por barril de óleo equivalente, aumento de 21% na comparação anual.
A PetroReconcavo informou que a alta foi influenciada pela valorização do real e pela concentração dos custos sobre uma base menor de produção.
Já o custo de equilíbrio operacional em caixa ficou em US$ 30,85 por boe. Apesar disso, a melhora do preço realizado permitiu que a margem por barril alcançasse US$ 40,65, avanço de 43% em 12 meses.
Os números indicam que a operação permanece rentável, mas também mostram que recuperar a produção será importante para diluir despesas e melhorar a eficiência.
Endividamento não aparece como problema central
A dívida líquida encerrou junho em R$ 1,36 bilhão, com relação dívida líquida/EBITDA de 1,01 vez. No primeiro trimestre, a alavancagem estava em 1,04 vez.
A empresa ainda gerou R$ 74 milhões em fluxo de caixa livre no trimestre e R$ 154 milhões no primeiro semestre.
Portanto, a pressão atual sobre RECV3 está mais relacionada à capacidade de recuperar a produção e capturar preços melhores do petróleo do que a um risco imediato de endividamento excessivo.
RECV3 continua pagando proventos
Mesmo diante dos desafios operacionais, a PetroReconcavo manteve a remuneração aos acionistas.
Em agosto, o conselho aprovou R$ 100 milhões em Juros sobre Capital Próprio, equivalentes a R$ 0,34 bruto por ação. Outros R$ 100 milhões em JCP já haviam sido pagos em maio.
Também permanece vigente a distribuição de R$ 300 milhões em dividendos aprovada em dezembro de 2025. O valor corresponde a aproximadamente R$ 1,02 por ação e será dividido em três parcelas, com pagamentos previstos para dezembro de 2026, 2027 e 2028.
O investidor deve evitar, contudo, projetar automaticamente os proventos recentes para os anos seguintes. Os pagamentos futuros dependerão da produção, do preço realizado do petróleo, dos investimentos e da geração de caixa.
RECV3 está barata ou virou uma armadilha?
A ação terminou o segundo trimestre negociada a R$ 9,98, com valor de mercado de R$ 2,9 bilhões. Na mesma data, o patrimônio líquido da companhia era de R$ 4,43 bilhões, indicando negociação abaixo do valor contábil.
Esse desconto pode representar potencial de valorização caso a PetroReconcavo recupere a produção e melhore a eficiência operacional. Entretanto, uma ação barata por múltiplos não é necessariamente uma oportunidade imediata.
Entre os fatores favoráveis estão a geração positiva de caixa, a alavancagem controlada, as reservas disponíveis e a distribuição de proventos. Do outro lado, pesam a queda dos volumes, o aumento do custo por barril e os contratos de hedge que se estendem até 2028.
A tese depende, sobretudo, da recuperação operacional. Sem crescimento da produção, o desconto pode permanecer por mais tempo, mesmo em um ambiente favorável para o petróleo.
A decisão mencionada no material original de vender RECV3 representa a avaliação particular de um investidor sobre custo de oportunidade. Não constitui fato relevante da companhia nem uma recomendação aplicável a todas as carteiras.
O que acompanhar antes de investir em RECV3
Os próximos dados mensais de produção serão o principal termômetro da tese. O mercado também deverá observar:
- recuperação dos campos de Miranga e Tiê;
- resultado dos projetos de workover e injeção de água;
- evolução do lifting cost;
- impacto financeiro dos contratos de hedge;
- geração de caixa livre;
- manutenção dos proventos;
- relação entre o preço realizado e a cotação internacional do petróleo.
A PetroReconcavo não deixou de ser uma companhia lucrativa, mas precisa demonstrar que consegue estabilizar e recuperar sua produção. Até que isso aconteça, RECV3 pode continuar negociada com desconto — e acompanhada de um nível maior de incerteza.
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