A greve nacional dos petroleiros entrou no quarto dia, com adesão registrada em 28 plataformas offshore, segundo dados das entidades sindicais. A paralisação ocorre em meio às negociações do Acordo Coletivo de Trabalho, em discussão desde o fim de agosto. A Petrobras afirma seguir negociando, mas a proposta apresentada não foi aceita pelos trabalhadores.
Apesar do ruído, o mercado não tem precificado a greve como um risco estrutural. Paralisações desse tipo são recorrentes na história da estatal e, até o momento, não geraram impactos relevantes sobre produção ou fluxo de caixa. Além disso, a Petrobras já negocia com desconto expressivo em relação aos seus múltiplos históricos, o que reduz a sensibilidade do preço da ação a eventos pontuais.
Queda do petróleo pressiona ações, mas mantém tese de longo prazo
O principal fator de pressão sobre a Petrobras hoje não é a greve, mas sim a forte queda do petróleo. Desde abril de 2024, o Brent acumulou desvalorização próxima de 25%, saindo da região próxima a US$ 80 para patamares ao redor de US$ 60 o barril, chegando a operar momentaneamente abaixo desse nível.
A correlação entre o preço do petróleo e as ações da Petrobras segue clara. No mesmo período, PETR4 recuou cerca de 26%, praticamente espelhando o movimento da commodity. Historicamente, ciclos de compra da Petrobras em momentos de petróleo deprimido costumam gerar retornos relevantes quando o ciclo da commodity se inverte.
Mesmo com o Brent pressionado, a produção da companhia segue em níveis recordes, o que sustenta a geração de caixa e preserva a tese de dividendos para 2025 e 2026.
Múltiplos mostram Petrobras negociando abaixo da média histórica
Atualmente, a Petrobras negocia próxima de 0,95 vez o valor patrimonial, abaixo da média observada em diversos períodos anteriores, inclusive antes da pandemia. Em momentos recentes, a estatal chegou a negociar acima de 1,3 vez o patrimônio, mesmo sob maior incerteza política.
Outros indicadores reforçam o desconto:
ROE acima de 18%
EV/Ebitda próximo de 4 vezes
Margem Ebitda em torno de 36%
Margem líquida próxima de 15%
Esses números indicam que, mesmo com petróleo mais barato e risco político no radar, o ativo segue com fundamentos sólidos e rentabilidade elevada em comparação a pares globais.
Dividendos para 2026: projeção mais conservadora ainda atrativa
A projeção de dividendos para 2026 foi revisada para baixo em função do novo patamar do Brent. Ainda assim, a expectativa é de distribuição em torno de R$ 3,49 a R$ 3,50 por ação, o que representa um dividend yield estimado entre 10% e 11%, mesmo em um cenário mais conservador.
Esse nível de remuneração já é inferior às estimativas mais otimistas do mercado, mas reflete uma abordagem mais realista, considerando petróleo entre US$ 60 e US$ 65. Caso o Brent caia ainda mais, novas revisões podem ocorrer, mas, nesse intervalo, a remuneração segue considerada robusta para o perfil da empresa.
Preço-teto para PETR4 em 2026
Com base em um retorno desejado de 8%, o preço-teto estimado para a Petrobras chega a R$ 43,64. Em um cenário mais conservador, exigindo 10% de retorno, o preço-teto cai para R$ 34,91, ainda assim com margem de segurança em relação às cotações atuais.
Essas projeções reforçam que a ação permanece descontada, mesmo quando se embute prêmio adicional de risco por se tratar de uma estatal controlada pelo governo.
Governo já conta com bilhões da Petrobras no Orçamento
O governo federal incluiu no Orçamento de 2026 a expectativa de R$ 54 bilhões em dividendos de estatais, valor essencial para o cumprimento da meta fiscal. Como maior pagadora de dividendos do país, a Petrobras é peça central nessa estratégia.
Além disso, o próprio plano estratégico da companhia indica capacidade de distribuir cerca de US$ 50 bilhões em dividendos ao longo dos próximos cinco anos, o que equivale a uma média anual próxima de US$ 10 bilhões. Convertido para reais, isso sustenta projeções entre R$ 3,70 e R$ 4,15 por ação, apenas com dividendos ordinários, sem considerar proventos extraordinários.
Proventos em aberto reforçam fluxo de caixa ao acionista
Atualmente, a Petrobras possui três proventos em aberto, sendo dois juros sobre capital próprio e um dividendo, com data-com em dezembro e pagamentos previstos para fevereiro e março. O valor total soma cerca de R$ 0,94 por ação, reforçando o fluxo de caixa imediato ao acionista.
Esse histórico consistente de distribuição é um dos pilares da tese de investimento, especialmente em momentos de preço deprimido da ação.
Valuation mostra Petrobras ainda abaixo do valor justo
Simulações de valuation por fluxo de caixa descontado, utilizando premissas mais conservadoras de crescimento, margem e taxa de desconto elevada, apontam valor justo na faixa entre R$ 34 e R$ 41, dependendo do cenário. Mesmo em hipóteses mais pessimistas, o ativo demonstra capacidade de “aguentar desaforo” nos preços atuais, mantendo margem de segurança.
Isso reforça a leitura de que o risco político, embora relevante, não é o principal determinante do valuation da companhia. O fator decisivo segue sendo o ciclo do petróleo e a capacidade operacional da Petrobras.
Mesmo diante de greve, petróleo em queda e incertezas políticas, a Petrobras segue negociando com desconto relevante, mantendo fundamentos sólidos e uma das maiores capacidades de geração de dividendos da Bolsa brasileira. Para o investidor de longo prazo, o cenário atual reforça o papel da estatal como ativo cíclico que tende a se beneficiar fortemente na próxima recuperação do petróleo, enquanto remunera o acionista no carrego.
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