O preço das ações do Grupo Mateus voltou a chamar a atenção dos investidores depois de GMAT3 cair abaixo de R$ 4. A cotação reduzida pode transmitir a impressão de que a companhia está barata, especialmente quando comparada aos níveis superiores a R$ 8 registrados nos últimos 12 meses.
Entretanto, o valor unitário da ação não é suficiente para determinar se existe uma oportunidade. A queda reflete uma combinação de resultados operacionais mais fracos, questionamentos sobre os controles internos da empresa e uma nova autuação tributária de aproximadamente R$ 1,28 bilhão.
Durante o pregão desta terça-feira, 30 de junho de 2026, GMAT3 chegou a recuar quase 9%. Por volta das 14h10, o papel era negociado perto de R$ 3,65, com queda de aproximadamente 4,70%. A desvalorização acumulada desde o começo do ano se aproximava de 20%.
A pergunta, portanto, não deve ser apenas se GMAT3 está barata abaixo de R$ 4, mas se o desconto atual compensa os riscos que passaram a fazer parte da tese.
Nova autuação de R$ 1,28 bilhão pressiona GMAT3
O movimento mais recente das ações ocorreu depois de o Grupo Mateus informar que sua controlada Armazém Mateus recebeu um auto de infração da Receita Federal no valor total de R$ 1,28 bilhão.
A cobrança está relacionada aos exercícios fiscais de 2022 e 2023. O Fisco questiona principalmente a exclusão de créditos presumidos de ICMS da base de cálculo do Imposto de Renda da Pessoa Jurídica e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido.
Do montante total, R$ 492,90 milhões correspondem ao valor principal, enquanto aproximadamente R$ 789,10 milhões estão relacionados a multas e juros.
A companhia classificou a probabilidade de perda como possível. Isso significa que, neste momento, o valor não foi reconhecido como provisão no balanço. O Grupo Mateus afirma possuir fundamentos jurídicos e pareceres externos para contestar a autuação.
Também é importante destacar que o auto de infração não representa uma condenação definitiva. O caso será discutido inicialmente na esfera administrativa e ainda poderá chegar ao Judiciário, o que pode prolongar o processo por vários anos.
Para a XP, embora o episódio não deva produzir impacto imediato no caixa, a nova autuação acrescenta um risco tributário relevante e pode continuar pressionando a percepção dos investidores enquanto não houver maior clareza sobre o processo.
Companhia já enfrentava uma discussão tributária semelhante
A nova cobrança não é o primeiro conflito tributário envolvendo a Armazém Mateus.
Em setembro de 2024, a empresa informou outra autuação, de aproximadamente R$ 1,06 bilhão, relacionada à mesma discussão sobre créditos presumidos de ICMS. Nesse caso, os questionamentos abrangiam os exercícios de 2014 a 2021.
A repetição do tema em períodos posteriores aumenta a incerteza. Mesmo que a companhia consiga reverter os processos, investidores podem exigir um desconto maior para carregar as ações enquanto o risco jurídico permanecer em aberto.
Somadas, as duas autuações superam R$ 2,30 bilhões. Esse valor não deve ser interpretado automaticamente como uma dívida exigível, mas ajuda a dimensionar o tamanho da disputa tributária.
Ajuste de R$ 1,1 bilhão nos estoques afetou a confiança
Outro fator que continua pesando sobre GMAT3 é o ajuste realizado nos estoques da companhia em 2025.
O Grupo Mateus reduziu em aproximadamente R$ 1,1 bilhão o valor contabilizado dos estoques após identificar problemas relacionados ao cálculo do custo médio. O episódio provocou forte reação do mercado e levantou questionamentos sobre controles internos, qualidade das demonstrações financeiras e governança corporativa.
O ajuste reduziu os estoques anteriormente informados e afetou números de exercícios anteriores. Na época, as ações chegaram a acumular perdas expressivas após a divulgação das mudanças contábeis.
Embora a correção não tenha representado uma saída imediata de dinheiro do caixa, o efeito sobre a confiança foi significativo. Para o mercado, erros ou revisões relevantes em contas essenciais do balanço podem justificar múltiplos menores até que a empresa demonstre maior previsibilidade e transparência.
Resultados do primeiro trimestre trouxeram sinais mistos
O balanço do primeiro trimestre de 2026 mostrou crescimento da receita, mas também revelou pressão sobre vendas comparáveis, margens e lucro.
O Grupo Mateus apresentou receita líquida de R$ 9,40 bilhões, avanço de 12,90% em relação ao mesmo período de 2025. Parte relevante desse crescimento veio da consolidação do Novo Atacarejo e da abertura de unidades.
O lucro líquido, entretanto, caiu 22%, para R$ 213 milhões. O Ebitda recuou 18,20%, para aproximadamente R$ 400 milhões, enquanto a margem Ebitda diminuiu 1,60 ponto percentual, chegando a 4,30%.
O principal sinal de alerta foi o desempenho das vendas em mesmas lojas. O indicador recuou 7,30%, mostrando enfraquecimento da operação orgânica. A companhia atribuiu parte da queda à deflação de alimentos e à estratégia de preservar a margem bruta, mesmo com perda de volume.
| Indicador do Grupo Mateus | Resultado no 1T26 | Variação anual |
| Receita líquida | R$ 9,40 bilhões | +12,90% |
| Lucro líquido | R$ 213 milhões | -22,00% |
| Ebitda | R$ 400 milhões | -18,20% |
| Margem Ebitda | 4,30% | -1,60 p.p. |
| Vendas em mesmas lojas | -7,30% | Forte desaceleração |
| Novas unidades | 4 lojas | Expansão mantida |
Os números mostram que o Grupo Mateus continua crescendo em tamanho, mas encontra dificuldades para transformar a expansão em aumento proporcional dos lucros.
O balanço ainda apresenta pontos positivos
Apesar das incertezas, a tese de GMAT3 não é formada apenas por aspectos negativos.
O Grupo Mateus possui uma operação de grande escala, presença relevante no Norte e no Nordeste e exposição ao varejo alimentar, segmento considerado mais defensivo do que outras áreas do consumo.
A empresa também apresentou geração de caixa operacional de aproximadamente R$ 323,50 milhões no primeiro trimestre e encerrou o período com alavancagem próxima de 0,33 vez o Ebitda, patamar considerado controlado.
Isso reduz o risco de uma crise financeira de curto prazo. A discussão central não é a capacidade imediata de sobrevivência da companhia, mas a qualidade dos controles, a recuperação das vendas comparáveis e o retorno que será gerado pelo processo de expansão.
A ação abaixo de R$ 4 não significa empresa barata
Um erro frequente é avaliar uma empresa apenas pelo preço nominal de cada ação.
O Grupo Mateus possui bilhões de ações em circulação. Portanto, mesmo negociada abaixo de R$ 4, a companhia ainda apresenta valor de mercado de vários bilhões de reais. A XP estimou que a nova autuação de R$ 1,30 bilhão corresponde a cerca de 15% do valor de mercado da empresa.
Para descobrir se GMAT3 está realmente barata, o investidor precisa comparar seu valor de mercado e sua dívida com o lucro, o Ebitda, a geração de caixa e a capacidade de crescimento futuro.
Uma ação pode custar R$ 3 e estar cara caso os lucros continuem caindo. Da mesma forma, uma ação de R$ 30 pode estar barata se a companhia apresentar crescimento consistente e baixo risco.
O que pode fazer GMAT3 voltar a subir
Uma recuperação mais sustentável das ações depende de fatores que vão além da redução dos juros ou de uma melhora geral da Bolsa.
Entre os possíveis gatilhos positivos estão a retomada das vendas em mesmas lojas, recuperação das margens, maior geração de caixa, integração eficiente das aquisições e esclarecimentos convincentes sobre os controles de estoques.
Uma evolução favorável nas discussões tributárias também poderia diminuir o desconto aplicado pelo mercado. No entanto, esses processos podem levar anos e dificilmente produzirão uma solução rápida.
Por outro lado, novos ajustes contábeis, piora nas vendas, aumento das despesas ou surgimento de outras autuações poderiam prolongar a pressão sobre GMAT3.
GMAT3 abaixo de R$ 4 vale a pena?
O preço inferior a R$ 4 tornou GMAT3 mais acessível, mas não eliminou os riscos da tese. A empresa possui escala, baixa alavancagem e capacidade de geração de receita, porém atravessa um período de menor rentabilidade e perda de confiança.
Para investidores conservadores, pode ser mais prudente esperar sinais consistentes de recuperação das vendas comparáveis e maior clareza sobre os processos tributários.
Para investidores dispostos a assumir mais risco, o desconto pode representar uma oportunidade de longo prazo, desde que a posição seja limitada e acompanhada de perto. Nesse caso, a decisão precisa estar baseada em valuation e resultados futuros, não apenas no fato de a ação custar menos de R$ 4.
A cotação caiu porque o mercado passou a exigir uma margem de segurança maior. Agora, cabe ao Grupo Mateus provar que consegue recuperar a eficiência operacional, fortalecer a governança e transformar sua expansão em crescimento sustentável dos lucros.
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