A Copasa (CSMG3) voltou a pressionar investidores na Bolsa após uma combinação de notícias negativas: queda do lucro no primeiro trimestre de 2026, aumento do endividamento, margens menores e atraso no processo de privatização. A companhia mineira de saneamento ainda mantém uma tese considerada relevante pelo mercado, principalmente pela possibilidade de venda do controle estatal, mas os dados mais recentes mostram que o caminho ficou menos simples.
No resultado do 1T26, divulgado em maio, a Copasa registrou receita líquida de R$ 1,91 bilhão, alta de 2,5% em relação ao mesmo período do ano anterior. O avanço foi sustentado, em parte, pelo reajuste tarifário de 6,56%, em vigor desde 22 de janeiro de 2026. Apesar da receita maior, o desempenho operacional perdeu força: o Ebitda caiu 3,2%, para R$ 787 milhões, e a margem Ebitda recuou para 40,9%, queda de 2,4 pontos percentuais.
O ponto que mais chamou atenção foi o lucro. A Copasa encerrou o trimestre com lucro líquido de R$ 368 milhões, queda de 14,1% na comparação anual. Segundo a própria companhia, o resultado foi pressionado por fatores como aumento de serviços de terceiros, maior provisão para perdas de crédito, elevação de depreciação e amortização, nova contabilização da cobrança pelo uso de recursos hídricos e piora do resultado financeiro.
Por que as ações da Copasa caíram?
A queda das ações da Copasa não se explica apenas pelo lucro menor. O mercado também reagiu ao aumento da incerteza em torno da privatização. Em 27 de maio de 2026, a companhia informou que faria mudanças nas condições da oferta pública secundária de ações, o que exigiu a divulgação de novos documentos e a atualização do cronograma da operação. A decisão adiou o anúncio do acionista de referência, esperado para aquele dia.
Segundo informações publicadas pela imprensa, Aegea e Equatorial apresentaram propostas para ocupar o papel de investidor de referência, mas a Copasa não confirmou oficialmente um vencedor. A Veja informou que uma das empresas ficaria com cerca de 30% da composição acionária da companhia, mas também destacou que circulavam informações de bastidores indicando que as propostas não teriam atingido o valor mínimo desejado pelo governo de Minas Gerais.
A mudança no cronograma aumentou o risco percebido pelo mercado. O Safra apontou que o adiamento gerou incertezas sobre valuation, demanda e conclusão da oferta, e informou que as ações chegaram a cair cerca de 6% na B3 após o comunicado. Já o InfoMoney registrou que os papéis fecharam em queda de 4,71%, a R$ 50,75, no dia da mudança da oferta.
Números atualizados da Copasa no 1T26
| Indicador | Resultado 1T26 | Variação anual |
|---|---|---|
| Receita líquida | R$ 1,91 bilhão | +2,5% |
| Ebitda | R$ 787 milhões | -3,2% |
| Margem Ebitda | 40,9% | -2,4 p.p. |
| Lucro líquido | R$ 368 milhões | -14,1% |
| Volume de água | 170 milhões m³ | -0,4% |
| Volume de esgoto | 118 milhões m³ | +0,3% |
| Reajuste tarifário | 6,56% | Desde 22/01/2026 |
| Investimentos no trimestre | R$ 695 milhões | — |
Os dados mostram uma empresa que ainda gera caixa e mantém receita elevada, mas que enfrenta pressão de custos, despesas financeiras e investimentos pesados. O próprio comunicado da Copasa destacou investimentos de R$ 695 milhões no primeiro trimestre de 2026, valor relevante para uma companhia que precisa expandir e modernizar sua infraestrutura.
Privatização segue como principal gatilho para CSMG3
Mesmo com a piora recente, a privatização continua sendo o principal gatilho para a Copasa. A Assembleia Legislativa de Minas Gerais aprovou em definitivo, em dezembro de 2025, o projeto de lei que autorizou a desestatização da companhia. A votação terminou com 53 votos favoráveis e 19 contrários, após obstrução de parlamentares da oposição.
Para parte dos analistas, esse avanço político mudou a percepção sobre a empresa. A XP afirmou que passou a enxergar a privatização como cenário-base e elevou o preço-alvo de CSMG3 para R$ 53,60 ao fim de 2026, mantendo recomendação de compra. A casa também estimou uma TIR real de 9,6% para a Copasa, já considerando um cenário de privatização.
Na prática, a tese da Copasa deixou de depender apenas dos números atuais e passou a refletir uma expectativa de transformação. A entrada de um investidor privado poderia trazer ganhos de eficiência, disciplina de capital, melhora operacional e maior previsibilidade. O problema é que, com o atraso na oferta, parte dessa expectativa ficou em compasso de espera.
A ação da Copasa está barata ou cara?
A resposta depende do perfil do investidor. Para quem busca empresas descontadas, a Copasa não parece uma barganha evidente. O próprio preço-alvo da XP, de R$ 53,60, ficou próximo das cotações recentes registradas após a queda. Isso indica que parte importante da tese de privatização já estava no preço.
Por outro lado, se a privatização avançar em condições favoráveis, a ação pode voltar a ganhar força. O risco é que qualquer novo atraso, judicialização, mudança de regra ou oferta abaixo do esperado reduza o entusiasmo dos investidores.
Também pesa o fato de que a Copasa está em ciclo de investimentos e com lucro pressionado. Isso pode limitar dividendos no curto prazo. Para investidores focados em renda passiva, a companhia pode não ser a alternativa mais atrativa do setor neste momento, especialmente se comparada a empresas com múltiplos mais baixos ou dividend yield mais elevado.
O que observar nos próximos meses
O mercado deve acompanhar três pontos principais: a republicação dos documentos da oferta de privatização, a definição do novo cronograma e a escolha do investidor de referência. Esses fatores serão decisivos para medir se a tese de valorização continua de pé ou se a ação precisará passar por uma nova rodada de ajuste.
Além disso, os próximos resultados trimestrais serão importantes para verificar se a queda do lucro foi pontual ou se a pressão sobre custos, dívida e despesas financeiras continuará afetando a rentabilidade da empresa.
Copasa ainda pode destravar valor, mas risco aumentou
A Copasa segue sendo uma das principais teses de saneamento da Bolsa brasileira em 2026, mas a história ficou mais complexa. De um lado, há uma empresa com receita bilionária, presença relevante em Minas Gerais e possibilidade real de privatização. De outro, há lucro em queda, dívida mais pesada, margens menores e ruídos no processo de venda.
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