A Gerdau (GOAU4), uma das maiores empresas de aço do continente americano, voltou ao radar dos investidores após forte valorização na Bolsa. O movimento, no entanto, não está sendo sustentado por um “boom” nos fundamentos e sim por fluxo de capital e expectativas de um novo ciclo global de commodities.
O mercado começa a se posicionar para um possível cenário de maior demanda por infraestrutura, energia, data centers e indústria pesada, mas os números atuais mostram que a economia real ainda não confirmou esse crescimento.
Tese de investimento: América do Norte é o grande escudo da Gerdau
O diferencial da Gerdau frente a outras siderúrgicas brasileiras está na sua forte presença na América do Norte, que hoje é a principal fonte de geração de caixa da companhia.
EBITDA América do Norte: cerca de R$ 1,8 bilhão
EBITDA Brasil: cerca de R$ 763 milhões
Além disso, o mercado norte-americano tem mostrado:
- Backlog de pedidos acima da média histórica
- Forte demanda em energia e infraestrutura
- Construção não residencial aquecida
Isso torna a Gerdau menos vulnerável às políticas tarifárias dos EUA, quando comparada a concorrentes que dependem mais de exportações.
O maior risco: o aço chinês no Brasil
Se há um ponto de pressão, ele está no mercado brasileiro.
Apesar do aumento de receita e volume, a empresa enfrenta:
Compressão de margens
A margem EBITDA caiu de cerca de 20% para 10%, refletindo maior competição e pressão de preços, especialmente por conta da penetração do aço chinês.
Não há um “crash” na economia brasileira, mas sim uma desaceleração gradual. Setores atendidos pela Gerdau indústria, agro, construção civil e automotivo seguem operando, porém sem aceleração relevante.
Fundamentos: pico ficou em 2021–2022
O ciclo mais forte de resultados já passou:
- Receita e EBITDA atingiram pico em 2022
- Lucro líquido vem recuando desde então
- Margem líquida próxima de 4%, uma das menores dos últimos anos
Mesmo assim, a empresa mantém:
Fluxo de caixa positivo
Capex elevado (cerca de R$ 7 bilhões nos últimos 12 meses)
Alavancagem controlada (Dívida líquida/EBITDA ≈ 0,8x)
A ação sobe por fluxo, não por crescimento real
O movimento recente nas ações está muito ligado ao chamado fluxo para emergentes.
Grandes fundos globais vêm reduzindo posição em títulos e aumentando exposição a:
- Commodities
- Materiais básicos
- Mercados emergentes
Esse capital “inflaciona” os preços dos ativos antes mesmo da economia real reagir.
O mercado está precificando um ciclo de crescimento que ainda não apareceu nos dados industriais globais.
Dividendos e recompra: foco muda para o “shareholder yield”
Com a possível tributação de dividendos, o investidor passa a olhar não só o pagamento direto, mas também:
Recompras de ações
A Gerdau tem programa ativo e já cancelou a maior parte das ações recompradas, reduzindo a base acionária.
Dividend Yield recente: entre 3,5% e 4%
Não é mais o principal atrativo o ganho tende a vir da valorização da ação.
Histórico impressionante de longo prazo
Quem reinvestiu dividendos ao longo de décadas viu retornos explosivos. A ação é altamente cíclica e já apresentou:
Altas superiores a 100% em anos de ciclo forte
Quedas de até 80% em momentos de crise
Ou seja, é uma ação para quem entende volatilidade de commodities.
Valuation: ainda não está cara
Indicadores mostram que a ação não parece esticada:
- P/L baixo
- P/VP perto de 0,7
- EV/Receita moderado
- Earnings Yield em torno de 8%
Isso sugere que o mercado ainda não precificou totalmente um ciclo forte — mas também não há margem de segurança enorme.
Vale aportar tudo agora?
Não parece ser um momento de “all in”.
Estratégia mais prudente:
- Aportes graduais
- Parte do capital em caixa/CDI
- Esperar confirmação de melhora nos dados industriais globais
Se a economia real engrenar em 2026–2027, a Gerdau pode ter espaço para novas altas. Mas se o ciclo não vier, a correção pode ser forte.
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