A queda recente da Bolsa brasileira reacendeu o debate sobre empresas negociadas abaixo do que muitos analistas consideram seu valor justo. Em momentos de maior aversão ao risco, companhias lucrativas, consolidadas e com bons indicadores operacionais podem ser penalizadas junto com o mercado, criando oportunidades para investidores de longo prazo.
A seleção reúne cinco ações de setores diferentes: celulose, seguros, banco regional, alta renda e educação. A proposta não é apontar compra imediata, mas mostrar empresas que aparecem com múltiplos descontados, histórico operacional relevante e teses que dependem de paciência, análise individual e controle de risco.
Suzano SUZB3 combina liderança global e ciclo de commodities
A Suzano, negociada pelo código SUZB3, é uma das principais referências mundiais em celulose. A companhia tem escala industrial, base florestal própria, produção integrada e forte presença no mercado internacional. Esse conjunto permite competir com custos difíceis de serem replicados por concorrentes de regiões como Europa e Estados Unidos.
O ponto que chama atenção é o desconto nos múltiplos. Segundo o levantamento apresentado, a empresa aparecia com preço sobre lucro abaixo de cinco vezes, preço próximo ao valor patrimonial, margem líquida robusta e retorno elevado sobre o capital.
Apesar disso, a tese exige cautela. A Suzano é uma empresa de commodities, e o lucro pode oscilar conforme o preço internacional da celulose. Quando o ciclo está favorável, os resultados tendem a melhorar; quando há pressão nos preços globais, a margem pode cair. Por isso, a ação costuma fazer mais sentido para quem aceita volatilidade e pensa em horizonte de cinco a dez anos.
WIZC3 aposta em seguros e modelo multicanal
A WIZ, negociada como WIZC3, aparece como uma tese menos popular, mas com um modelo considerado eficiente. A companhia atua na distribuição de seguros, consórcios e produtos financeiros, com forte presença em bancassurance e parcerias comerciais.
Após o fim do antigo contrato de exclusividade com a Caixa, a empresa precisou se reinventar. O novo modelo passou a ser mais diversificado, com canais independentes e parcerias com instituições financeiras, concessionárias e outros agentes de mercado.
A principal força da WIZ está na capacidade de gerar receita com menor necessidade de capital fixo. Em negócios assim, a eficiência operacional costuma pesar mais do que grandes investimentos físicos. O risco, porém, está na capacidade de manter crescimento após a transição do modelo anterior. Para o mercado, ainda existe dúvida sobre a continuidade dos resultados em uma estrutura menos dependente da Caixa.
Banrisul BRSR6 negocia com desconto e paga dividendos
O Banrisul, representado na Bolsa principalmente por BRSR6, é um banco tradicional do Rio Grande do Sul e aparece como uma tese de valor. O banco tem histórico longo, carteira de crédito regional e atuação relevante no estado.
O principal atrativo citado está no desconto patrimonial. A ação era negociada abaixo do valor contábil, indicando que o mercado avalia o banco por menos do que seu patrimônio líquido. Além disso, o preço sobre lucro baixo reforça a percepção de ativo descontado.
O motivo do desconto é conhecido: o banco tem controle estatal e forte concentração regional. Isso traz risco político, menor visibilidade nacional e exposição à economia do Rio Grande do Sul. Ainda assim, para investidores que aceitam esse risco, a combinação de lucro recorrente, dividendos e desconto patrimonial pode justificar acompanhamento mais próximo.
JHSF3 se apoia no mercado de luxo e renda recorrente
A JHSF, negociada como JHSF3, não deve ser analisada como uma construtora tradicional. A companhia atua em um ecossistema de alta renda, com shoppings premium, hotelaria, gastronomia, incorporação de luxo e ativos voltados ao público de maior poder aquisitivo.
Essa diferença explica margens mais elevadas e um modelo menos dependente apenas da venda de imóveis. A empresa possui ativos que podem gerar receita recorrente, como shoppings e operações ligadas ao segmento de luxo.
O desconto da ação pode estar relacionado à dúvida do mercado sobre o ritmo de crescimento do setor de alta renda. Embora o público-alvo tenha maior resiliência econômica, existe o risco de desaceleração, concentração de receita e dependência de projetos específicos. Mesmo assim, a JHSF segue no radar por unir marca forte, ativos diferenciados e exposição a um nicho pouco comum na Bolsa brasileira.
VTRU3 chama atenção no setor de educação digital
A Vitru, associada ao código VTRU3 em plataformas de mercado, aparece como tese ligada à expansão da educação a distância no Brasil. A empresa opera marcas como Uniasselvi e UniCesumar, com atuação relevante em ensino superior digital.
O modelo de educação online tem vantagens claras: mensalidades mais acessíveis, flexibilidade para o aluno e maior escala operacional. Em um país continental, com milhões de pessoas buscando formação superior, a educação a distância tende a continuar relevante.
Os indicadores citados chamam atenção pelo baixo preço sobre lucro, desconto em relação ao valor patrimonial, margem líquida elevada e retorno expressivo. Porém, o setor carrega riscos importantes. Mudanças regulatórias, exigências de carga presencial, qualidade acadêmica e concorrência podem afetar a tese.
O que essas ações têm em comum
As cinco empresas pertencem a setores diferentes, mas compartilham um ponto central: o mercado parece aplicar desconto por incertezas específicas. Na Suzano, o risco está no ciclo da celulose. Na WIZ, na transição do modelo de negócios. No Banrisul, no controle estatal e na concentração regional. Na JHSF, na dependência do mercado de luxo. Na Vitru, na regulação da educação a distância.
Esse tipo de oportunidade exige análise criteriosa. Ação barata não significa necessariamente ação boa. Em muitos casos, o desconto existe por razões concretas. O investidor precisa entender se o risco já está no preço ou se ainda pode pressionar os papéis por mais tempo.
Diversificação segue sendo ponto central
Mesmo quando uma empresa parece descontada, concentrar todo o capital em poucas ações aumenta o risco da carteira. Uma estratégia mais equilibrada costuma combinar empresas com potencial de valorização, boas pagadoras de dividendos, fundos imobiliários, renda fixa e exposição ao exterior.
O ponto principal é que múltiplos baixos podem indicar oportunidade, mas não eliminam riscos. Para quem investe no longo prazo, o desafio é separar empresas temporariamente ignoradas pelo mercado daquelas que estão baratas porque enfrentam problemas estruturais.
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