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3 ações brasileiras que parecem baratas por motivos diferentes e intrigam investidores para 2026

Petro Recôncavo, Petrobras e Irani chamam atenção por desconto no valuation, alta rentabilidade e resiliência silenciosa, revelando três teses distintas de valor na Bolsa.
Felipe AndradePor Felipe Andrade15 de janeiro de 20266 minutos lidos
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3 ações brasileiras que parecem baratas por motivos diferentes e intrigam investidores para 2026
3 ações brasileiras que parecem baratas por motivos diferentes e intrigam investidores para 2026

Em um mercado onde boa parte dos ativos já parece precificada ou até cara, um estudo recente trouxe à tona três empresas brasileiras que chamam atenção por negociarem a múltiplos considerados atrativos, cada uma por razões muito diferentes. A análise não se limita a indicadores isolados, mas busca entender a história que os números contam, conectando fundamentos, risco, rentabilidade e estratégia de capital.

As companhias analisadas são Petro Recôncavo, Petrobras e Irani. À primeira vista, todas parecem “baratas”. Mas, ao aprofundar a investigação, fica claro que o desconto de cada uma nasce de narrativas distintas: lucro esquecido, risco político e resiliência estrutural.

Petro Recôncavo: o caso do “lucro esquecido” pelo mercado

A Petro Recôncavo, empresa do setor de petróleo onshore, aparece como o primeiro caso intrigante. Com ações negociadas em torno de R$ 10,98, a companhia apresenta múltiplos que chamam atenção logo de início. O Preço sobre Valor Patrimonial (P/VP) gira em torno de 0,7, o que indica que o mercado está pagando cerca de 30% abaixo do valor contábil da empresa.

Na prática, isso significa que o valor patrimonial por ação está próximo de R$ 15,55, enquanto a cotação permanece bem abaixo desse nível. Esse tipo de desconto costuma levantar uma pergunta central: trata-se de uma distorção de mercado ou existe um risco relevante embutido no preço?

Outro ponto que reforça o enigma é o retorno sobre o patrimônio (ROE), em torno de 13,6%. Embora hoje esse número ainda dispute atenção com uma Selic elevada, o cenário muda completamente em um ciclo de queda de juros. Em um ambiente de Selic entre 9% e 10%, um negócio capaz de gerar quase 14% de retorno sobre o capital próprio tende a se tornar muito mais atrativo.

O elemento mais curioso, no entanto, está no comportamento do lucro. O lucro líquido da Petro Recôncavo saltou de cerca de R$ 400 milhões para R$ 620 milhões, um crescimento superior a 50%. Ainda assim, em vez de acompanhar essa melhora operacional, a ação caiu na Bolsa. Esse descolamento entre lucro crescente e preço em queda é visto por analistas como uma anomalia.

A tese aqui é clara: se o mercado reconhecer que esse novo patamar de lucro é sustentável, a tendência natural seria uma reprecificação da ação. Usando uma abordagem conservadora focada em renda, com exigência de 8% ao ano em dividendos, o preço teto estimado é de R$ 12, o que ainda deixa uma margem de segurança em relação à cotação atual.

Petrobras: o gigante rentável, mas incompreendido

Se no primeiro caso o mercado parece ignorar o lucro, no segundo ele parece exigir um prêmio elevado pelo risco. A Petrobras, negociada em torno de R$ 29,70, também apresenta múltiplos baixos de P/L e P/VP, semelhantes aos de empresas consideradas descontadas.

Nos últimos 12 meses, a estatal distribuiu aproximadamente 10,9% em dividendos, um patamar bastante elevado. Mais impressionante ainda é o retorno sobre o patrimônio, próximo de 20%, um nível considerado excepcional mesmo em padrões internacionais.

Diante desses números, surge a pergunta inevitável: por que a Petrobras continua negociando com desconto? A resposta não está nos balanços, mas fora deles. O mercado precifica o chamado risco político, associado à possibilidade de interferência estatal em decisões estratégicas, política de preços e investimentos.

Por isso, o investidor se torna mais exigente. Enquanto na Petro Recôncavo a régua de dividendos considerada aceitável gira em torno de 8%, na Petrobras esse número sobe para 9%, como forma de compensar a incerteza adicional.

Mesmo aplicando esse critério mais rigoroso, o estudo aponta um preço teto estimado de R$ 39 para a ação. Isso representa uma margem de segurança próxima de 24% em relação ao preço atual, sugerindo que o mercado pode estar penalizando excessivamente o risco, diante de uma geração de caixa tão robusta.

Irani: a fortaleza silenciosa da previsibilidade

O terceiro caso muda completamente de perfil. A Irani, do setor de papel e embalagens, é negociada por volta de R$ 8,77 e não parece, à primeira vista, uma pechincha clássica. O P/VP de cerca de 1,4 indica que o mercado paga acima do valor patrimonial.

Ainda assim, ela entra na lista por outro motivo: qualidade e resiliência do negócio. Diferente das petroleiras, a Irani opera em um segmento menos cíclico, com demanda estável e forte previsibilidade de receitas.

A empresa se destaca pela regularidade no pagamento de dividendos, distribuindo resultados de quatro a cinco vezes por ano, com um histórico de rendimento próximo de 8%. Mas a verdadeira fortaleza aparece quando se analisa o comportamento do negócio em crises.

Dados históricos mostram que, tanto na crise de 2008 quanto durante a pandemia, os preços dos produtos da companhia se mantiveram estáveis ou até subiram. Isso reflete a natureza essencial das embalagens e o modelo de economia circular, no qual o papel reciclado é a principal matéria-prima, reduzindo a dependência direta do preço da celulose.

Outro ponto-chave é a política agressiva de recompra de ações. Desde 2021, a empresa realizou quatro programas de recompra, reduzindo em cerca de 26% o número de ações em circulação. Esse movimento sinaliza que a própria gestão entende que investir nas próprias ações gera mais valor do que outras alternativas de capital.

Pelo critério estrito de dividendos, o preço teto ficaria em torno de R$ 8,50, ligeiramente abaixo da cotação atual. Porém, ao ajustar a régua para uma exigência de 7% ao ano, considerando crescimento e segurança, o preço teto sobe para R$ 9,50, abrindo espaço para uma margem mais confortável.

Três teses, três formas de enxergar valor

A análise revela que “barato” pode significar coisas muito diferentes na Bolsa.

  • Petro Recôncavo representa a anomalia clássica entre lucro crescente e preço em queda.

  • Petrobras é o caso do gigante extremamente rentável que carrega o peso do risco político.

  • Irani mostra que valor também pode estar na previsibilidade, na resiliência e na disciplina de capital, mesmo sem um grande desconto aparente.

Mais do que apontar números, o estudo reforça que o verdadeiro desafio do investidor é entender qual tipo de valor está buscando: desconto puro, alto retorno com risco ou qualidade de longo prazo.

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Felipe Andrade
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Felipe Andrade é analista de investimentos e colunista de mercado, com experiência em renda variável e mercados globais. Na A Revista, acompanha ações, empresas, petróleo, energia, commodities e mercados internacionais. Analisa resultados e documentos das companhias, contextualiza riscos e diferencia dados de expectativas.

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