Com o mercado de ações brasileiro rondando máximas históricas, cresce entre os investidores a sensação de que “a festa acabou” e que todas as boas oportunidades já foram precificadas. Em meio a múltiplos elevados e euforia seletiva, encontrar ativos com margem de segurança parece uma tarefa cada vez mais difícil.
Mas a história nem sempre é tão simples. Em nichos menos óbvios da Bolsa, três small caps vêm chamando atenção justamente por nadarem contra a corrente: Odontoprev, Schulz e Banco ABC Brasil. Empresas de setores completamente diferentes, mas unidas por um ponto em comum: negociações abaixo do que muitos analistas consideram seu valor intrínseco.
A seguir, o que está por trás de cada tese e os riscos que justificam o desconto.
Odontoprev: eficiência extrema em um modelo asset light
A Odontoprev é um dos exemplos mais claros de como um negócio tradicional pode operar com lógica quase tecnológica. Líder absoluta no mercado de planos odontológicos, a empresa não possui clínicas próprias nem mantém grandes estruturas físicas. Seu modelo é baseado em uma plataforma que conecta milhões de beneficiários a uma vasta rede de dentistas credenciados.
Esse formato “asset light” reduz drasticamente custos fixos e permite uma escalabilidade rara no setor de saúde. O resultado aparece nos números: o lucro saiu de cerca de R$ 315 milhões em 2016 para uma projeção próxima de R$ 600 milhões, o que representa um crescimento médio anual em torno de 15%.
A rentabilidade impressiona. O retorno sobre o patrimônio líquido supera 40%, enquanto a margem líquida gira em torno de 25% patamares incomuns até mesmo em empresas de tecnologia. A forte geração de caixa permite que a companhia distribua grande parte dos lucros aos acionistas, sustentando um dividend yield projetado acima de 8% nos próximos anos.
Apesar disso, a ação negocia a cerca de 10 vezes o lucro, nível próximo ao menor de sua história. O mercado parece penalizar a empresa por dois fatores principais: a concorrência crescente no setor e a comparação direta com grandes pagadoras de dividendos, como BB Seguridade, que negocia a múltiplos ainda mais baixos.
O dilema do investidor é claro: trata-se de uma anomalia de preço ou apenas uma reprecificação justa diante de um crescimento futuro mais moderado?
Schulz: aposta clara na virada do ciclo industrial
Se a Odontoprev representa previsibilidade, a Schulz é o retrato da ciclicidade. Líder na América Latina em compressores de ar, a companhia atua também em autopeças, máquinas agrícolas e soluções ligadas a biogás e biometano.
Ao longo dos últimos anos, a empresa usou sua expertise industrial para diversificar receitas e inovar. Um dado chama atenção: mais de 50% da receita da divisão de compressores vem de produtos lançados nos últimos cinco anos, evidenciando uma cultura de inovação ativa.
Entre 2016 e 2022, o crescimento foi expressivo. No entanto, a desaceleração econômica e a queda na demanda por caminhões e ônibus impactaram os resultados recentes. Os lucros estagnaram, e as projeções indicam um período de menor crescimento até 2026.
Esse cenário já parece refletido no preço. A ação negocia a um múltiplo preço/lucro próximo de 6, bem abaixo da média histórica da empresa. Além disso, a Schulz mantém caixa líquido, com mais dinheiro em caixa do que dívidas um colchão importante para atravessar ciclos adversos.
O alto dividend yield recente, acima de 12%, foi inflado por eventos não recorrentes. Olhando à frente, uma taxa mais realista gira em torno de 6%. Aqui, a tese não é renda pura, mas a aposta na recuperação do ciclo industrial, com potencial de valorização relevante se o cenário macroeconômico melhorar.
Banco ABC: renda previsível com desconto estrutural
O Banco ABC Brasil é um típico caso de “valor com renda”. Focado no segmento corporativo, o banco construiu um histórico sólido de crescimento: o lucro saltou de cerca de R$ 400 milhões em 2016 para próximo de R$ 1 bilhão em 2024, com expansão consistente da carteira de crédito.
Mesmo assim, o mercado segue cético. A ação negocia com desconto em relação ao valor patrimonial e entregou dividend yield superior a 10% nos últimos 12 meses. O principal motivo para o desinteresse é a rentabilidade: o retorno sobre o patrimônio gira em torno de 15%, abaixo dos grandes bancos de varejo como Itaú Unibanco e Bradesco, que historicamente operam acima de 20%.
Além disso, quase um quarto da carteira de crédito do banco está exposta ao agronegócio, setor que enfrenta dificuldades recentes com queda de preços e problemas climáticos. Isso elevou a inadimplência e pressionou margens, levando a projeções modestas de crescimento para os próximos anos.
Por outro lado, o banco mantém uma disciplina rara: lucros trimestrais estáveis e pagamentos de dividendos regulares há mais de uma década, mesmo em períodos de crise. Para investidores focados em renda previsível, o desconto pode representar uma oportunidade desde que o risco setorial seja bem compreendido.
O ponto central: oportunidade ou armadilha de valor?
As três empresas analisadas compartilham um traço em comum: qualidade operacional reconhecida, liderança em seus nichos e múltiplos que sugerem desconto. Ainda assim, cada uma carrega riscos específicos concorrência, ciclicidade econômica ou rentabilidade estruturalmente menor.
A verdadeira arte do investidor está em separar o pessimismo exagerado do mercado de alertas legítimos. Nem todo ativo barato é oportunidade, mas nem todo desconto é um erro de precificação.
Em um mercado esticado, olhar além da manada pode revelar valor onde poucos estão dispostos a procurar. A decisão final, como sempre, depende do perfil, do horizonte de investimento e da tolerância ao risco de cada investidor.
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