A mais recente cúpula do BRICS terminou sem o anúncio de uma moeda comum, mas trouxe decisões capazes de avançar por outro caminho na redução da dependência do dólar no comércio entre os países do bloco.
A Declaração de Nova Délhi, aprovada na 18ª Cúpula do BRICS, realizada nos dias 12 e 13 de setembro, determinou a continuidade dos trabalhos para tornar pagamentos internacionais mais rápidos e baratos e ampliar a interoperabilidade entre os sistemas financeiros dos países participantes.
A estratégia é diferente da criação imediata de uma nova moeda. Na prática, o BRICS pretende facilitar operações comerciais e investimentos diretamente em moedas nacionais.
BRICS aposta em pagamentos sem depender de uma moeda comum
O documento oficial reconhece os estudos da BRICS Payment Task Force (BPTF) para integrar canais de pagamento e de mensagens financeiras.
O grupo também confirmou discussões para ampliar a liquidação de comércio e investimentos utilizando moedas dos próprios países do BRICS.
Isso significa que empresas brasileiras, chinesas, indianas ou de outros integrantes poderiam, em determinados negócios, reduzir etapas que tradicionalmente utilizam o dólar como moeda intermediária.
Não existe, porém, uma decisão para abandonar completamente a moeda americana.
O governo indiano confirmou que não há atualmente proposta de criação de uma moeda única do BRICS. As negociações estão concentradas em mecanismos de pagamento, redução de custos e utilização de moedas locais.
Infraestrutura financeira vai além dos pagamentos
Outro ponto importante passou praticamente despercebido fora do debate econômico.
A declaração defende a construção de um ecossistema de seguros mais independente dentro do BRICS e prevê novas discussões para aumentar a capacidade de resseguro entre os integrantes.
Também está sendo estudado um BRICS Insurance Resilience Centre, enquanto a Índia propôs instalar um laboratório especializado em riscos financeiros na GIFT City.
O efeito potencial é relevante porque seguros e resseguros são fundamentais para comércio exterior, transporte marítimo, grandes obras e circulação internacional de mercadorias.
BRICS Grain Exchange entra novamente na agenda
A integração também pode chegar às commodities agrícolas.
Os países reafirmaram a intenção de desenvolver uma plataforma própria de negociação de grãos, conhecida como BRICS Grain Exchange.
O projeto ainda está em discussão e não possui uma bolsa plenamente operacional. A declaração prevê avançar na definição do modelo e estudar posteriormente sua expansão para outros produtos agrícolas e commodities.
Uma infraestrutura desse tipo poderia ampliar a capacidade do bloco de negociar e formar referências comerciais entre seus próprios mercados.
Tarifas comerciais aumentam pressão por alternativas
O movimento ocorre enquanto disputas tarifárias ganham força.
O BRICS declarou preocupação com tarifas e barreiras comerciais unilaterais e reiterou apoio a reformas na Organização Mundial do Comércio.
O Brasil sente diretamente esse ambiente. Em julho, os Estados Unidos aplicaram tarifa adicional de 25% sobre diversos produtos brasileiros, atingindo setores como calçados, máquinas, móveis e etanol.
Posteriormente, outra tarifa atingiu parte das exportações. Segundo o governo brasileiro, calçados, máquinas e equipamentos passaram a enfrentar as duas cobranças, enquanto aproximadamente 2 mil produtos ficaram fora das duas medidas. Café, carnes, suco de laranja e frutas estavam entre os itens citados como isentos; celulose ficou sujeita apenas à segunda tarifa.
Dólar continua dominante, mas BRICS cria alternativas
A mudança promovida pelo BRICS deve ser entendida como diversificação financeira, e não como substituição imediata do dólar.
A moeda americana continua no centro do sistema financeiro internacional e o próprio documento de Nova Délhi não estabelece prazo para abandoná-la.
O que mudou foi a infraestrutura em construção.
Pagamentos em moedas nacionais, integração entre sistemas financeiros, financiamento local, resseguros próprios e uma futura plataforma de commodities criam caminhos para que uma parcela crescente das operações entre países do bloco possa ocorrer sem necessidade de utilizar o dólar em todas as etapas.
A verdadeira disputa, portanto, pode não estar no lançamento de uma nova moeda, mas em reduzir gradualmente os pontos em que o comércio internacional depende obrigatoriamente dela.
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