A vida da abelha operária é muito mais complexa do que simplesmente voar entre flores e produzir mel. Desde o momento em que emerge da célula onde se desenvolveu, uma operária de Apis mellifera passa por diferentes atividades dentro e fora da colmeia.
Esse processo é conhecido como polietismo temporal, sistema no qual determinadas tarefas tendem a ser realizadas em diferentes fases da vida. A sequência, porém, não funciona como um calendário inflexível: idade, condições ambientais e necessidades da colônia podem antecipar ou atrasar as mudanças de função.
Estudos científicos indicam que operárias de primavera e verão normalmente vivem algumas semanas. Pesquisas encontram duração aproximada de quatro a oito semanas, enquanto abelhas adaptadas ao inverno podem sobreviver por períodos muito maiores.
Os primeiros dias são dedicados à limpeza
Logo após emergir, a jovem operária permanece dentro da colmeia. Uma de suas primeiras atividades é limpar células do favo.
As células precisam estar preparadas para receber novos ovos e para manter as condições sanitárias da colônia.
Nos dias seguintes, ocorre outra transformação importante. As glândulas hipofaríngeas ficam mais desenvolvidas e permitem que a operária participe da alimentação das larvas.
Ela passa então à função de abelha nutriz, cuidando da criação.
Produzir cera e manter a colmeia
Por volta da segunda semana de vida, muitas operárias passam a executar um conjunto maior de tarefas.
É nessa fase que podem construir e reparar favos, receber néctar trazido pelas campeiras, armazenar pólen e participar da ventilação da colmeia.
A cera utilizada nos favos é produzida pelo próprio organismo da abelha. Pequenas placas de cera são secretadas por glândulas localizadas no abdômen e depois trabalhadas pelas operárias.
Algumas também participam da remoção de indivíduos mortos ou doentes. Esse comportamento ajuda a reduzir riscos sanitários em uma comunidade formada por milhares de insetos vivendo muito próximos.
Depois chega a função de guarda
À medida que envelhecem, algumas operárias passam mais tempo próximas à entrada.
As guardas identificam indivíduos da própria colônia principalmente por sinais químicos e ajudam a impedir a entrada de invasores.
É também nesse período que aumenta a exposição a ameaças externas.
Mas o estágio mais arriscado ainda está por vir.
A campeira deixa a segurança da colmeia
Normalmente a grande mudança acontece durante a terceira semana de vida, embora exista bastante variação.
A operária começa a sair para buscar néctar, pólen, água e outras substâncias necessárias à colônia.
Esse estágio é conhecido como forrageamento.
A mudança ajuda a explicar por que operárias jovens executam atividades relativamente protegidas dentro do ninho enquanto indivíduos mais velhos assumem tarefas externas de maior risco.
Durante uma viagem de coleta, uma abelha pode visitar dezenas de flores. Quando encontra uma boa fonte de alimento, também pode transmitir informações às demais por meio da conhecida dança das abelhas.
Os estudos de Karl von Frisch sobre esse sistema de comunicação contribuíram para o Nobel de Fisiologia ou Medicina de 1973.
Uma colher de mel representa várias vidas de trabalho
Existe ainda um número que ajuda a dimensionar o esforço coletivo.
Materiais de extensão universitária estimam que uma operária produza, em média, cerca de 1/12 de uma colher de chá de mel ao longo de toda a vida.
Na prática, uma colher de chá corresponderia aproximadamente à produção acumulada de 12 operárias, embora o rendimento real varie conforme disponibilidade de flores, clima, genética da colônia e duração da fase de forrageamento.
O mais importante é que nenhuma abelha controla sozinha esse sistema.
A organização da colmeia surge da interação entre milhares de indivíduos. Se houver falta de campeiras, por exemplo, abelhas mais jovens podem começar a forragear antecipadamente. Mudanças na composição da colônia também podem alterar outras atividades.
Por isso, as conhecidas “seis profissões” — limpeza, cuidado das larvas, construção e manutenção, remoção de mortos, defesa e forrageamento — são uma forma didática de explicar uma organização muito mais flexível.
Em poucas semanas, uma única operária participa de praticamente todas as estruturas essenciais da colônia. E a pequena quantidade de mel produzida individualmente revela justamente o que torna as abelhas extraordinárias: o resultado não depende de uma abelha, mas do trabalho coordenado de milhares delas.
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