As ações do Banco do Brasil (BBAS3) voltaram a ganhar força na Bolsa e reacenderam uma dúvida entre investidores: depois da valorização recente, ainda existe margem para comprar o papel ou o melhor momento ficou para trás?
A discussão ganha peso diante de projeções que apontam dividend yield na casa dos 10,4%. É um percentual capaz de chamar a atenção de qualquer investidor de renda, mas há um detalhe fundamental: dividendos elevados, sozinhos, não tornam uma ação barata ou segura.
No caso do Banco do Brasil, o cenário exige olhar principalmente para a capacidade de recuperação dos lucros e para um problema que ainda não desapareceu: a piora da qualidade do crédito, especialmente no agronegócio.
BBAS3 subiu forte. Isso muda a tese?
O Banco do Brasil esteve entre os bancos beneficiados pela recente valorização do setor financeiro. No material analisado, BBAS3 chegou a acumular alta próxima de 40% em relação à mínima anterior, mesmo depois de uma correção de aproximadamente 9%.
É justamente depois de movimentos como esse que surge a tentação de vender simplesmente porque “subiu demais”.
Mas preço e valor não são necessariamente a mesma coisa.
Uma ação pode subir e continuar atrativa se os lucros futuros crescerem na mesma proporção. Da mesma forma, pode cair e continuar cara caso os fundamentos estejam se deteriorando.
Por isso, a pergunta mais relevante para BBAS3 não é quanto a ação já subiu, mas quanto o Banco do Brasil poderá lucrar daqui para frente.
O maior problema continua no crédito
O ponto mais delicado está na carteira de crédito rural, uma área particularmente importante para o Banco do Brasil.
A deterioração não é apenas uma preocupação teórica. O Banco Central informou em seu Relatório de Política Monetária de junho que a inadimplência do crédito rural alcançou 7,6% em fevereiro de 2026, maior nível da série naquele momento, permanecendo próxima desse patamar nos meses seguintes.
O próprio ambiente regulatório mostra a dimensão da dificuldade enfrentada pelo setor. Em julho e setembro de 2026, o Conselho Monetário Nacional autorizou mecanismos para composição e renegociação de determinadas dívidas rurais, incluindo operações que haviam entrado em inadimplência.
Para um banco, inadimplência maior significa possibilidade de mais provisões para cobrir perdas. E provisões maiores pressionam diretamente o lucro.
Esse é o ponto que o investidor precisa observar nos próximos balanços.
BBAS3 está barata?
Pelos números utilizados na análise que serviu de base para esta matéria, considerando valor de mercado próximo de R$ 130 bilhões e lucro projetado de R$ 16 bilhões, BBAS3 estaria sendo negociada perto de oito vezes o lucro esperado.
Mas existe outra forma de enxergar a ação.
Se o Banco do Brasil conseguir normalizar gradualmente sua carteira de crédito e voltar a produzir lucro próximo de R$ 20 bilhões a partir de 2027, a relação entre preço e lucro cairia para aproximadamente 6,5 vezes, considerando o mesmo valor de mercado.
É aí que está boa parte da tese.
Quem compra BBAS3 hoje não está apostando apenas no resultado atual. Está apostando que o banco conseguirá deixar para trás parte dos problemas recentes e recuperar sua rentabilidade.
E o dividend yield de 10,4%?
Aqui é preciso atenção.
Um dividend yield projetado de 10,4% é bastante atraente, mas não deve ser tratado como pagamento garantido. O indicador depende do lucro futuro, da política de distribuição, do preço da ação e da quantidade efetivamente destinada aos acionistas.
Inclusive, diferentes metodologias produzem números diferentes. A página de BBAS3 no InvesTalk, consultada atualmente, apresenta dividend yield de 5,79%, mostrando por que é importante saber se os 10,4% representam uma projeção futura ou um cálculo baseado em outra janela de pagamentos.
Portanto, comprar BBAS3 exclusivamente porque uma projeção aponta DY de dois dígitos pode ser uma estratégia arriscada.
Afinal, vale a pena investir em BBAS3?
BBAS3 reúne dois elementos que costumam atrair investidores: possibilidade de recuperação dos resultados e histórico de distribuição de proventos.
Mas a ação também carrega riscos relevantes.
Se a inadimplência rural recuar, as provisões diminuírem e o lucro voltar a crescer, os múltiplos atuais podem se mostrar interessantes e os dividendos podem ganhar força.
Se a deterioração do crédito persistir, porém, o lucro pode continuar pressionado — e isso também reduz a capacidade de distribuição de dividendos.
Para quem já possui BBAS3, portanto, a valorização recente, isoladamente, não parece ser motivo suficiente para vender. Para quem pensa em entrar agora, também não basta olhar para um dividend yield projetado de 10,4%.
O verdadeiro gatilho para BBAS3 está na recuperação dos resultados. Se o lucro voltar, os dividendos tendem a acompanhá-lo. Se o lucro decepcionar, o DY prometido no papel pode não chegar ao bolso do acionista.

