O Brasil acordou diferente depois do primeiro turno.

Antes mesmo de o debate político esfriar, o mercado financeiro deu seu recado: dólar em forte queda, Ibovespa em disparada e algumas das maiores empresas da Bolsa registrando altas de dois dígitos.

Não foi um movimento discreto.

Foi uma reação.

E reações dessa magnitude acontecem quando o resultado surpreende quem estava posicionado para outro cenário.

A explicação apresentada pelo mercado é relativamente simples: investidores passaram a enxergar uma probabilidade maior de mudança na condução econômica do país.

Menos expansão de gastos.

Maior possibilidade de reformas.

Menor pressão tributária.

Menos interferência política em determinadas empresas.

Tudo isso, evidentemente, ainda está no campo das expectativas.

E essa é justamente a parte mais importante da história.

O segundo turno ainda existe

A euforia das primeiras horas pode criar uma ilusão perigosa: a de que a eleição terminou.

Não terminou.

Lula continua sendo um adversário eleitoral extremamente competitivo, com décadas de experiência política e um histórico que recomenda cautela a qualquer pessoa que pretenda antecipar o resultado de uma disputa presidencial.

Subestimá-lo seria um erro.

Da mesma forma, transformar uma sessão de alta da Bolsa em certificado antecipado de vitória também seria.

Mercados trabalham com probabilidades.

E probabilidades mudam.

Se o cenário político mudar, os preços também mudarão.

O Senado pode ser tão importante quanto o Planalto

Há, entretanto, uma transformação que vai além da Presidência.

A nova composição do Senado pode alterar profundamente a capacidade do próximo governo de aprovar reformas, bloquear propostas e negociar mudanças estruturais.

Isso importa porque presidente nenhum governa sozinho.

Reforma tributária, previdenciária, fiscal, mudanças regulatórias, privatizações e grandes alterações institucionais dependem do Congresso.

Uma Presidência favorável às reformas com um Congresso contrário a elas produz paralisia.

Um Congresso alinhado pode produzir velocidade.

É por isso que investidores não observam apenas quem ocupará o Palácio do Planalto.

Eles observam quem terá condições políticas de governar.

Por que o dólar caiu?

Quando investidores internacionais percebem menor risco fiscal ou melhores perspectivas para um país, o capital pode voltar a entrar.

Mais dólares entrando significam maior oferta da moeda.

E, mantidas as demais condições, isso tende a pressionar sua cotação para baixo.

O movimento observado após a eleição também revela outra coisa: aparentemente, uma parte relevante desse cenário ainda não estava totalmente incorporada aos preços.

Quando aquilo que ninguém esperava acontece, o mercado corrige suas apostas rapidamente.

Foi o que vimos.

E por que tantas ações dispararam?

Juros são uma das maiores forças da economia brasileira.

Empresas carregam dívidas.

Consumidores financiam compras.

Construtoras dependem de crédito.

Bancos vivem de spreads, risco e atividade econômica.

Quando cresce a expectativa de maior disciplina fiscal, inflação mais controlada e juros menores no futuro, praticamente todo o tabuleiro muda.

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Empresas endividadas passam a respirar melhor.

O crédito pode ficar mais barato.

O consumo pode reagir.

Investimentos tornam-se mais atraentes.

E ativos de risco passam a valer mais.

Foi essa expectativa — e não uma transformação econômica já realizada — que o mercado começou a precificar.

Estatais entram no centro da discussão

Banco do Brasil, Petrobras e outras companhias ligadas ao Estado também ganham destaque nesse tipo de movimento.

O raciocínio dos investidores não precisa envolver necessariamente privatização.

Pode ser simplesmente a expectativa de menor interferência política, mudanças de gestão e maior foco em rentabilidade.

Mas, novamente, expectativas não são garantias.

Um novo governo pode cumprir o que o mercado imagina.

Pode fazer apenas parte.

Ou pode fazer exatamente o contrário.

Bolsa não negocia certezas.

Negocia expectativas sobre o futuro.

250 mil pontos?

Com o Ibovespa avançando para novas regiões, voltou a aparecer uma pergunta que parecia fantasiosa pouco tempo atrás:

até onde a Bolsa brasileira pode chegar?

Um índice em 250 mil pontos deixa de parecer impossível em um cenário de reformas relevantes, redução consistente dos juros, melhora fiscal e expansão dos lucros corporativos.

Mas existe uma enorme diferença entre “possível” e “garantido”.

Para que uma valorização estrutural aconteça, não basta ganhar uma eleição.

É necessário governar.

Aprovar medidas.

Controlar despesas.

Construir maioria.

Gerar confiança.

Entregar resultados.

E fazer tudo isso enquanto o mundo continua mudando ao redor do Brasil.

A mensagem mais importante não está na Bolsa

O grande ensinamento deste momento talvez seja outro.

Em política e em investimentos, arrogância costuma sair cara.

Uma eleição apertada pode mudar.

Uma pesquisa pode errar.

Uma ação que sobe 20% pode cair.

Um dólar que despenca em um dia pode recuperar parte do movimento no seguinte.

O mercado demonstrou preferência por determinado cenário econômico.

Isso é fato observável na reação dos preços.

Mas o mercado não recebeu uma máquina do tempo.

O Brasil ainda tem um segundo turno pela frente.

Portanto, comemoração pode esperar.

Análise, não.

O mercado já fez sua primeira aposta. Agora falta o eleitor dar a palavra final.