A proposta da Rússia de compartilhar tecnologia nuclear com o Brasil marca um movimento estratégico com impactos profundos que vão muito além da geração de energia elétrica. Em discussão durante a oitava reunião da Comissão de Alto Nível de Cooperação Brasil–Rússia (CAN), o tema ganhou destaque como um passo decisivo rumo à soberania tecnológica, ao fortalecimento do Sul Global e à redefinição das alianças estratégicas brasileiras.
O assunto foi tratado em encontro entre o primeiro-ministro russo Mikhail Mishustin e o vice-presidente brasileiro Geraldo Alckmin, dentro de uma agenda ampla que incluiu comércio bilateral, agricultura, fertilizantes, energia e inovação.
Parceria nuclear não envolve armamentos
A iniciativa russa não tem qualquer relação com fins militares. O Brasil é signatário do Tratado de Não Proliferação Nuclear, o que impede o desenvolvimento de armas atômicas. A proposta está centrada em usos civis da tecnologia nuclear, especialmente nos setores de energia, saúde, indústria e pesquisa científica.
Nesse contexto, a cooperação pode ampliar a capacidade nacional em áreas como radioisótopos médicos, equipamentos hospitalares, aplicações industriais de alta precisão e novos projetos energéticos.
Brasil já tem energia nuclear, mas não é autossuficiente
Embora o país opere as usinas de Angra 1, Angra 2 e esteja em fase avançada com Angra 3, a cadeia nuclear brasileira ainda depende fortemente de tecnologias estrangeiras. O Brasil domina o enriquecimento de urânio, mas não possui autonomia plena em todas as etapas do ciclo nuclear.
Atualmente, parte significativa da tecnologia utilizada no setor vem de países como Estados Unidos, França e Alemanha. Uma parceria com a Rússia — maior exportadora mundial de tecnologia nuclear civil — reduziria essa dependência e ampliaria o domínio nacional sobre áreas estratégicas.
Impacto direto na soberania tecnológica
A transferência de tecnologia nuclear é vista como um dos pilares mais sensíveis da soberania nacional. Ao diversificar parceiros e ampliar capacidades internas, o Brasil fortalece sua autonomia decisória em setores críticos, reduz vulnerabilidades externas e ganha maior poder de barganha no cenário internacional.
Esse movimento se insere em uma estratégia mais ampla de fortalecimento do Sul Global e dos países do BRICS, grupo do qual Brasil e Rússia são membros centrais.
Comércio bilateral e desdolarização
Além da pauta nuclear, a reunião também avançou em temas econômicos. O comércio bilateral entre Brasil e Rússia vem crescendo, impulsionado principalmente pela exportação de produtos agrícolas brasileiros, como café, e pela importação de fertilizantes russos, essenciais para o agronegócio nacional.
Outro ponto sensível discutido foi a possibilidade de ampliar o comércio em moedas locais, reduzindo a dependência do dólar em transações bilaterais. A iniciativa faz parte do debate mais amplo sobre desdolarização no âmbito do BRICS e é vista como estratégica para diminuir a influência financeira dos Estados Unidos sobre economias emergentes.
Antecedentes e avanço rumo a acordos concretos
O interesse brasileiro na tecnologia nuclear russa não é recente. Em maio de 2025, durante visita oficial do presidente Lula à Rússia para as celebrações dos 80 anos do Dia da Vitória da Segunda Guerra Mundial, o tema já havia sido abordado com o presidente Vladimir Putin.
Meses depois, em outubro de 2025, a Rússia voltou a sinalizar a intenção de exportar tecnologia nuclear para países do BRICS durante a Semana Energética Russa. Agora, com a assinatura de um documento bilateral defendendo cooperação estratégica, multilateralismo e não intervenção externa, os países avançam da retórica para a construção de acordos práticos.
Geopolítica e reações internacionais
A aproximação entre Brasil e Rússia em áreas sensíveis como energia nuclear e comércio fora do dólar tende a gerar reações negativas por parte dos Estados Unidos e de aliados europeus. Ainda assim, o documento conjunto ressalta o compromisso com a paz, a não intervenção e o respeito à soberania da América Latina e do Caribe.
O movimento reforça uma tendência clara: o Brasil busca ampliar sua autonomia estratégica, diversificar parcerias e assumir papel mais ativo na reorganização do equilíbrio geopolítico global.
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