A JAC Motors foi uma das primeiras marcas a enxergar potencial nos carros elétricos no Brasil. Porém, justamente no momento em que os veículos eletrificados ganham espaço rapidamente no mercado, a montadora chinesa passa por um movimento contrário: reduz sua linha de automóveis, diminui sua estrutura e tenta reposicionar a operação brasileira.

A história da JAC no país começou em 2011, sob representação do grupo SHC, comandado pelo empresário Sérgio Habib. A chegada foi acompanhada por uma campanha de grande repercussão, com Faustão como garoto-propaganda, além da inauguração de dezenas de lojas praticamente de uma só vez.

Havia ainda planos ambiciosos de produção nacional. Uma fábrica chegou a ser projetada para Camaçari, na Bahia, com capacidade prevista de 110 mil veículos por ano. O empreendimento, porém, nunca saiu do papel. Anos depois, outro projeto industrial foi anunciado em Goiás, mas também não avançou.

A aposta precoce nos elétricos

Depois das tentativas de produzir veículos no Brasil, a JAC mudou sua estratégia e passou a apostar com força nos modelos elétricos. Em 2018, quando boa parte das montadoras ainda avaliava como entraria nesse segmento, a empresa já oferecia opções 100% elétricas no mercado brasileiro.

Entre elas estava o compacto E-JS1, que chegou em um período no qual havia poucas alternativas elétricas relativamente acessíveis no país.

O cenário mudou completamente nos anos seguintes. Concorrentes chinesas ampliaram rapidamente seus portfólios e conquistaram participação relevante no mercado brasileiro, enquanto os produtos da JAC perderam espaço.

A marca confirmou a retirada do SUV JS4 e do sedã elétrico E-J7 de sua linha. Com isso, o E-JS1 passou a ser a única opção de automóvel de passeio da empresa no país.

A diferença de desempenho para os principais concorrentes é significativa. Segundo os dados citados no material, enquanto modelos como BYD Dolphin Mini e Geely EX2 atingiram milhares de unidades comercializadas em apenas um mês, o E-JS1 acumulou somente 123 unidades de janeiro a julho.

Você pode gostar

Rede também ficou menor

O encolhimento não ocorreu apenas no portfólio. A rede da JAC, que chegou a inaugurar cerca de 50 lojas em sua chegada ao Brasil, foi drasticamente reduzida.

Ao mesmo tempo, a própria matriz chinesa começou a estruturar uma operação direta no país para trabalhar com caminhões elétricos e a diesel. O grupo SHC permanece ligado aos veículos leves, incluindo automóveis, picapes e elétricos.

A estratégia indica uma JAC diferente daquela apresentada ao consumidor brasileiro há 15 anos. A empresa afirma que pretende aumentar o foco em picapes e veículos comerciais.

Pioneira que perdeu o momento

O caso chama atenção porque a JAC identificou antecipadamente uma transformação que realmente ocorreu. Os carros elétricos e híbridos passaram a ocupar uma parcela cada vez maior das vendas brasileiras.

Entretanto, antecipar uma tendência não foi suficiente.

Enquanto novas marcas chinesas chegaram ao país com produtos modernos, grande oferta de tecnologia e lançamentos frequentes, a JAC perdeu competitividade. Além disso, a forte desvalorização de alguns de seus primeiros modelos no mercado de usados contribuiu para afetar a imagem da marca.

A JAC agora tenta escrever um novo capítulo no Brasil. Sai de cena a estratégia de oferecer uma ampla variedade de automóveis e ganha espaço uma operação concentrada em picapes, caminhões e veículos comerciais.

A ironia é evidente: uma das primeiras marcas a apostar no carro elétrico no Brasil perdeu força justamente quando o mercado que ela ajudou a antecipar finalmente começou a crescer.