As ações do Banco do Brasil, negociadas sob o código BBAS3, voltaram a chamar atenção do mercado após perderem força e retornarem para a faixa abaixo de R$ 20. O movimento aumentou a cautela dos investidores antes da divulgação do próximo balanço trimestral, considerado um dos mais importantes para a tese do banco em 2026.
O principal ponto de atenção está nas provisões para perdas com crédito. O Banco do Brasil tem forte exposição ao agronegócio, setor que vem sentindo os efeitos dos juros elevados, do endividamento e da piora na capacidade de pagamento de parte dos produtores. Como consequência, o banco precisa reservar mais dinheiro para cobrir possíveis perdas futuras.
Esse cenário pesa diretamente sobre o lucro. A expectativa do mercado é de um resultado mais fraco em comparação aos grandes bancos privados, como Itaú, Bradesco e Santander. Por isso, parte dos analistas acredita que BBAS3 ainda pode enfrentar volatilidade caso o balanço mostre nova pressão nas margens e nas provisões.
A XP reduziu o preço-alvo das ações do Banco do Brasil de R$ 25 para R$ 21 e manteve recomendação neutra. A leitura é que o banco ainda tem uma estrutura patrimonial sólida, mas vive um momento de menor visibilidade no curto prazo. Ou seja, a ação pode parecer descontada, mas o mercado ainda quer sinais mais claros de recuperação.
Dividendos menores tiram força da tese no curto prazo
Outro fator que pesa sobre BBAS3 é a expectativa de dividendos menores. Nos últimos anos, o Banco do Brasil ganhou destaque entre investidores pela forte distribuição de proventos. No entanto, com o lucro pressionado e maior necessidade de reforçar reservas, o pagamento tende a ser mais limitado.
Isso não significa que o banco perdeu relevância. O Banco do Brasil segue sendo uma instituição grande, lucrativa e com presença estratégica no crédito rural, no financiamento empresarial e no atendimento a milhões de clientes. Porém, o momento exige mais cautela.
Para quem olha a ação com foco em longo prazo, a tese depende principalmente de três fatores: queda dos juros, melhora da inadimplência e normalização do agronegócio. Se esse cenário avançar, o banco pode recuperar rentabilidade e voltar a entregar resultados mais fortes.
No curto prazo, porém, o balanço será decisivo. O investidor deve observar lucro líquido, provisões, inadimplência, margem financeira, índice de capital e guidance para os próximos trimestres.
Raízen vive fase crítica com ação abaixo de R$ 1
A Raízen também segue no radar, mas por um motivo mais delicado. As ações RAIZ4 continuam negociadas abaixo de R$ 1, o que aumenta a pressão por medidas de reenquadramento na B3. Quando uma ação permanece por muito tempo abaixo desse valor, a bolsa pode exigir providências para evitar a manutenção do papel como penny stock.
O caminho mais provável é o grupamento de ações. Nesse processo, vários papéis são reunidos em um só, fazendo o preço unitário subir. No entanto, o grupamento não melhora os fundamentos da empresa. Ele apenas altera a quantidade de ações e o preço por papel, sem mudar o valor total da participação do investidor.
Por isso, o mercado segue atento ao que realmente importa: dívida, geração de caixa e capacidade de recuperação operacional. A Raízen enfrenta um momento difícil, com endividamento elevado e resultados pressionados. Mesmo quando algumas linhas operacionais mostram melhora, o prejuízo ainda pesa na percepção dos investidores.
A companhia também vem sofrendo com a saída ou redução de posição de investidores institucionais. Esse tipo de movimento costuma reforçar a cautela, pois indica que grandes participantes do mercado estão reduzindo exposição ao risco da empresa.
Para RAIZ4 voltar a ganhar confiança, será necessário apresentar um plano claro de desalavancagem, melhora de rentabilidade e geração de caixa mais consistente.
JBS ganha destaque com tese internacional
Ao contrário de Raízen e Enjoei, a JBS aparece em uma posição mais consolidada. A companhia é uma das maiores empresas de alimentos do mundo, com forte atuação em proteínas bovina, suína, aves e alimentos processados. Além do Brasil, a empresa tem presença relevante nos Estados Unidos e em outros mercados internacionais.
A JBS passou a ganhar ainda mais visibilidade com a listagem no exterior. Para investidores brasileiros, a exposição à companhia também pode ocorrer por meio de BDRs negociados na B3. Esse movimento ampliou o interesse por uma tese mais global, ligada ao consumo de alimentos, câmbio, exportações e margens internacionais.
O ponto positivo é que a empresa atua em um setor de demanda recorrente. Alimentos fazem parte do consumo básico da população, mesmo que os hábitos mudem conforme renda, inflação e preços. Em momentos de juros menores e inflação mais controlada, companhias de consumo tendem a encontrar um ambiente mais favorável para crescimento de receita e melhora de margens.
Ainda assim, a JBS não é uma tese sem riscos. O setor de proteínas é cíclico e depende de custos de produção, preço dos grãos, câmbio, demanda global, margens nos Estados Unidos e condições sanitárias. A empresa pode crescer em receita, mas nem sempre esse avanço se transforma automaticamente em lucro na mesma proporção.
Por isso, a análise da JBS deve considerar fluxo de caixa, dívida, margens, dividendos e capacidade de expansão internacional.
Enjoei cresce, mas ainda precisa provar rentabilidade
A Enjoei, dona da plataforma de compra e venda de itens novos e usados, segue em busca de uma virada operacional. A empresa atua como marketplace, conectando vendedores e compradores principalmente em moda, acessórios, objetos usados e produtos de segunda mão.
O modelo de negócio tem apelo, especialmente em um mercado no qual consumidores buscam preços menores e alternativas ao varejo tradicional. A tendência de desapego, revenda e economia circular ajuda a sustentar o volume de transações na plataforma.
O problema está na rentabilidade. A Enjoei ainda enfrenta dificuldade para transformar crescimento de receita em lucro consistente. A margem segue apertada, e a empresa precisa lidar com concorrência forte, custos de tecnologia, marketing, atendimento, segurança nas transações e retenção de usuários.
A operação também depende de escala. Para marketplaces, crescer em volume é importante, mas não basta. A empresa precisa aumentar eficiência, reduzir perdas e ampliar receitas sem elevar custos na mesma proporção.
Por isso, as ações da Enjoei seguem com perfil mais arriscado. O papel pode atrair investidores em busca de recuperação, mas a tese ainda depende de uma melhora clara nos resultados. Sem lucro recorrente, a ação tende a continuar sensível a qualquer sinal de piora operacional.
O que essas ações mostram sobre a bolsa
BBAS3, Raízen, JBS e Enjoei mostram quatro histórias bem diferentes dentro da bolsa.
O Banco do Brasil é uma empresa sólida, mas enfrenta pressão no crédito e dividendos menores. A Raízen vive uma fase de alto risco, com ação abaixo de R$ 1, dívida elevada e possível grupamento. A JBS aparece como uma tese global mais robusta, ligada ao consumo de alimentos e ao mercado internacional. Já a Enjoei ainda tenta provar que seu modelo digital pode gerar lucro de forma sustentável.
Para o investidor, a principal lição é que preço baixo não significa, necessariamente, oportunidade. Uma ação descontada pode estar barata por exagero do mercado, mas também pode refletir problemas reais nos fundamentos.
Antes de comprar qualquer papel, é importante observar lucro, dívida, fluxo de caixa, margens, dividendos, setor de atuação e perspectivas para os próximos trimestres. Em 2026, essas quatro empresas devem continuar no radar, mas cada uma exige uma leitura diferente de risco e potencial.
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